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Ago25

«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

Manuel Pinto

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«Anos de 1866, 67, 68 termina Eça a sua formatura em Direito, estreia-se na Gazeta de Portugal, cozinha o Distrito de Évora, ensaia a lira satânica de Baudelaire. E flana, flana por Lisboa. A experiência da capital vem-lhe dessa data. Os decadentes e irregulares que traz ao tablado, em especial no Primo Basílio, nos Maias, e toda a sub-galeria dos romances póstumos, personagens quase todas dealbadas da ganga nativa nas águas do Sena, são transposições da sua vida de sociedade.»

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«Esses três anos, não falando no período morto que vai até 1869, consumi-los-á em vagabundagem, num vago cenáculo, literatizando como sempre à francesa, até a altura em que de monóculo entalado no orbe do olho e uma grande curiosidade na alma embarca com o conde de Rezende para a Terra Santa. Viagem farta de pitoresco e de perspectiva, fornecerá o tema, por um ror de tempo, às tertúlias literárias. O nome de Eça passa a voar nas asas da fama, os cultores da anedota havendo pilhado um filão.»

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«Entretanto Camilo vai assentando pedra após pedra na prodigiosa torre, mais que Babel, que é a sua obra. S. Miguel de Seide é um estaleiro. Trabalham a derreter os miolos, instados pelas necessidades da vida, tanto o escritor como Ana Plácido. A seguir à Enjeitada, romance francamente mau, em que presumo vislumbrar a mesma tessitura feminina da Luz coada por ferros, talvez retocado e limado pelo escritor, apareceu o Judeu, a Queda dum Anjo, duma altitude nunca antes atingida em Portugal, o Santo da Montanha com uma boa parte castiça e superior, o Senhor do Paço de Ninães, não menos sobranceiro, os Mistérios de Fafe, em que estua uma prosa viril e dúctil, dobrada nas suas mãos como o ferro nas tenazes do bom ferreiro de Guimarães, o Retrato de Ricardina que rasga uma janela de céu azul e chão de neve no terrível e feio mundo. Para falar apenas nos livros capitais daqueles três anos de intensa safra. O lutador está a entrar na última década da sua actividade e produz como as macieiras do seu quintalinho dão maçãs. Às cestadas. Por todo o Portugal, levado pelas gazetas, pelos livros a dois tostões, pelos folhetos de polémica e os ventos suscitados, o seu nome corre. Não há ninguém dotado de percepção alfabética, digamos, que não descortine, como a um seareiro prometáico, o trabalhador a cobrir infatigavelmente com a sua letrinha miúda e rectilínea resmas e resmas de papel branco.

Em Évora, em Lisboa, em Leiria, alguma vez o escritor incipiente e snob se aperceberia deste Caim das letras? Sentiria alguma vez pulsar a alma multíplice, cheia de falhas, mas até nelas grandioso, deste colosso? Não no-lo diz quando é tão prolixo nas suas inclinações e fatacazes. E é lamentável que em cérebro tão peregrino como o de Eça não brotasse uma admiração espontânea, impulsiva, ardorosa pelo veterano do romance, já que o coração lhe havia, mercê dos maus boléus das fadas, estancado para os reptos da generosidade sem troco. E nós hoje, porque a plana literária se nos defronta em perspectiva rasa e emareada de preconcebimentos, não compreendemos o silêncio de Eça. A demarcar o percurso triunfo triunfal do romancista da Relíquia, falta um artigo, uma saudação, um brado de entusiasmo pelo escritor que fora naufragar na verde e anojadiça terra minhota, falta-lhe, sim, esse ex-voto, tal emblema de Hermes na via dum César.»

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«E entre os merecidos respeitos não há Aristarco que não coloque Camilo, o maior.»

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 « ...o certo é que Eça, considerando o romance em coma, excluía Camilo do número dos reanimadores, pois que era tarde para a carreira deste o fazê-lo e equivaleria simultâneamente a negá-lo supondo-o investido de semelhante empresa. E é clamorosa a injustiça de tal conceito contra quem vinha praticando com exaustão e com relevo aquele género literário.»

(continua)

publicado às 19:44