Creio que não seja novidade para ninguém que acompanha este meio que sou professor há bastante tempo. Também não há de ser novidade o fato que sou bastante crítico do sistema de ensino, do governo e de como recursos são utilizados na educação.

Recentemente, com tantas sanções, juízes e torcidas (este último item chocando, mas nunca surpreendendo) eu vejo muita gente enchendo a boca pra falar sobre a força da lei, a justiça, e bla bla bla…

Primeiro, devemos ressaltar sobre como o próprio discurso em torno disso é complicado. Falam da Justiça assim, com J maiúsculo, como se fosse uma entidade autônoma e inviolável, totalmente imune às influências das decadências humanas. Não faz nenhum sentido, é irracional e passional… mas assim é o brasileiro, paciência.

Portanto, voltemos ao ponto central: a justiça e um país livre.

Eu já acreditei muito no braço da justiça, de como as coisas devidamente demonstradas, denunciadas, não poderiam passar impunes. Até o dia que cometi o erro pueril de tomar nas mãos a atitude e arruinar minha reputação e meu sossego.

Até tive outras oportunidades de perceber isso… de fato, desde minha primeira experiência com o ensino público eu já notei os “esquemas”, mas eu sou meio burro mesmo, demoro a entender as coisas.

Enfim, em determinado momento, há alguns anos — poucos, na verdade — eu “descobri” uma série de indícios de corrupção na escola onde trabalhei. Pra ser franco, as irregularidades passeavam em todas as esferas: da instância trabalhista (com assédio e favorecimento indevido) à merenda dos alunos. Como fui descobrindo tudo é uma novela que por si renderia boas páginas, portanto, vamos pular para o que interessa: as ilusões do país justo e livre.

Eu reuni uma imensa papelada com notas fiscais e tudo o mais. Existia inclusive um cardápio oficial da escola onde estava prevista merenda bem nutrida, com diversidade de carboidratos e proteínas. Porém, no “chão da escola” — como gostam de falar meus colegas sindicalistas — os alunos recebiam regularmente biscoito de água e sal. Fruta, então… ninguém nem viu! Coloco o cardápio em questão abaixo, devidamente censurado pra evitar o braço caridoso de quem ouso reclamar…

Divulguei tudo isso com a comunidade escolar e abri denúncia formal junto ao Ministério Público. E começou o pesadelo!

Primeiro porque comecei a receber na escola “visitas” de funcionários do alto escalão governamental que eu sequer sabia existir. Falavam sobre ilegalidade do meu ato, ameaçavam. Depois porque professores resolveram aliar-se à gestão da escola para me perseguir. Passei a ser uma párea. Professores “neutros” nesta batalha recebiam reprimenda por cumprimentar-me ou dar bom dia. Realizava-se reuniões ameaçando funcionários temporários que ousassem romper o bloqueio. Cheguei a ter uma câmera de vigilância instalada exclusivamente sobre minha mesa, que honra!

E piora porque os possíveis desvios não passavam só pela alimentação, mas também pelos recursos escolares. A instituição recebia um bom dinheiro para compra de material. Em notas fiscais e documentos de prestação de contas, constavam ferramentas como serras, furadeiras, perfurador de solo e mesa multifuncional de marcenaria. No entanto, nada disso existia na escola.

Tudo foi posto em denúncia ao MP, claro. Além disso, denúncias na Polícia Civil, ao MP estadual e ao federal… enfim, tudo quanto era possível.

Até aí, “normal”. Esperar os resultados… e eles vieram, embora não como eu esperava.

Pra choque de qualquer um, precisei questionar a primeira decisão. Diante da denúncia e dos documentos, o Ministério Público entrou em contato com a gerência de ensino e perguntou: estão roubando? A gerência entrou em contato com a escola e perguntou: estão roubando? A escola respondeu: não! E o Ministério Público acatou.

Claro que a escola não só respondeu, como enviou um relatório sobre mim. Como se o denunciante fosse o problema. Eu ri dessa parte, devo confessar. No documento, tinha fotos de minhas aulas sobre legislação, LDB, Estatuto da Criança e do Adolescente… “O professor devia seguir o currículo…”. Deviam reclamar com o MEC, então.

Mas isso também não vem ao caso e por si é outra novela. A cereja do nosso bolo, o que realmente importa aqui, é uma parte irrisória do relatório. Lá, a escola coloca prováveis fotos dos equipamentos que teria comprado…

Para exemplificar melhor, preciso antes mostrar apenas uma das notas fiscais.

Em destaque, circulado de vermelho, alguns dos equipamentos adquiridos. Como vemos, são furadeiras e serras da marca Makita. Uma marca considerada boa e todas com modelo especificado. A furadeira, por exemplo, podemos encontrar perfeitamente no site da própria marca:

As serras também estão no site:

São equipamentos que estão especificados em nota. Claramente demonstrados em detalhes: modelo, marca, tipo… tudo! Se eu vou a uma loja e trago uma nota fiscal, trago também o produto. Ninguém recebe nota de um equipamento e leva outro pra casa, certo?

Aparentemente, errado!

Eis que esta foi a resposta em relatório. Fotos que, em tese, comprovam a existência dos equipamentos na escola.

A imagem da esquerda, em vermelho, é o que deveria ser “AS SERRAS”. E não, eu não errei a concordância. Eles colocaram um único equipamento como “prova” da existência de dois. Pra piorar, um equipamento que em nada assemelha-se nem à marca adquirida e sequer ao tipo, quanto mais ao modelo. Qualquer um pode jogar esta imagem no Google e ver que o equipamento na verdade é uma esmerilhadeira. Equipamento diferente e com outra finalidade do que aqueles apresentados em nota. Já a imagem da direita é uma furadeira de fato, mas sequer a cor é igual à da marca adquirida.

Duas possibilidades neste caso: ou a escola comprou gato e levou pra casa lebre ou houve uma tentativa de fraude no relatório. Em ambos os casos, temos um problema que merece maiores explicações. Mais tarde, em relatório ao Ministério Público Federal (este primeiro foi ao MP Estadual), as fotos dos equipamentos magicamente mudaram. Entre um relatório e outro existiu meu recurso, demonstrando as incongruências que demonstrei aqui, além de outras. Claro que a mudança não deve ter qualquer relação com isso… imagine só!

Mesmo assim, o soneto não saiu melhor que a emenda.

Desta vez, constavam equipamentos Makita. Porém, uma PARAFUSADEIRA e apenas uma SERRA (faltando a do tipo Tico-Tico). Dispensarei a presença das imagens aqui porque creio já ter ficado claro qual foi a tentativa dos autores desse documento.

Sabe qual a atitude dos órgãos diante destes dados? Encerraram as denúncias. Para ser justo, o MP Estadual encaminhou para a Polícia Civil a abertura de um inquérito que arrasta-se há alguns anos, sem resposta. Mas para isso eu precisei responder inúmeras vezes, interpor recursos, escrever relatórios, detalhar notas, mostrar incongruências.

Todos os outros encerraram por julgarem não haver quaisquer evidências de desvio ou fraude. Isso mesmo. Mesmo com o que demonstrei aqui, mesmo isso sendo só uma pequena parte dos inúmeros outros absurdos. Há no relatório, por exemplo, um print de pesquisa de preço no Google em que TODAS AS OPÇÕES custam menos da metade do valor que a escola adquiriu um item. Porém, os autores do relatório mostram um outro modelo no print alegando ser o adquirido. Este sim, com valor próximo ao gasto.

E não fica na análise dos documentos. Todos os procedimentos de apuração soam absurdos. Desde a carta perguntando ao denunciado se houve desvio até a visita de agentes que resumiram todo o procedimento a perguntar a funcionários, subordinados do principal acusado, sobre a existência dos desvios. Eu entendo que isso deve ser o procedimento padrão. Contudo, é um sistema cruel que leva-me a crer piamente que é construído para proteger os denunciados.

No final da conta, eu adoeci, minha família também. Minha reputação foi prejudicada, meu emprego, meu sossego.

Hoje estou em outra escola, outra cidade, e certo de que não devo jamais meter-me com estas coisas. Não adianta e não vale a pena.

Não vivemos em um país livre, meus amigos!

Inclusive, só o medo de escrever isso tudo que aqui coloquei já é uma evidência clara disso. Considerem tudo como ficção. Um exercício de escrita.

Como tenho insistido toda vez que alguém vem fazer queixas sobre governo, repito: cuide de si, dos seus, e tenha fé em Deus.

É isso!
Até a próxima e que Nosso Senhor nos abençoe.