Foto: Linda Soglia/Acervo Pessoal

Madame K - Nós nos conhecemos há mais de três décadas, vi sua poesia nascer em cadernos artesanais e hoje alcançar traduções e prêmios. O que permaneceu intacto nesse percurso, e o que se transformou profundamente em você como poeta?

José Inácio Vieira de Melo - Pois é, Katia Borges, minha querida malunga, El tiempo pasa. Três décadas. E a gente aqui insistindo nessa coisa da poesia. E você me pergunta o que permaneceu intacto. A sensação que eu tenho é de que nada permaneceu intacto. A não ser essa inquietação transformadora. Que é paradoxal, não é? A intacta inquietação. Mas esse questionamento, essa indagação, em busca de sentido, em busca de ritmo, é mesmo o que ficou intacto. Que é justamente o sentimento de que nada é intacto e de que tudo é tão passageiro. A vontade de poesia é o combustível da perplexidade, que alimenta, primordialmente, a cada instante, a minha existência.

MK - Em Pedra Só, você fundou uma geografia íntima, quase um território existencial. Se voltasse a escrever esse livro hoje, depois de tantas travessias, que pedra escolheria colocar no centro da sua poesia?

JIVM - Pedra Só é o desenho de uma paisagem e de um povo cuja história está ligada a esse cenário, a essa paisagem, a caatinga, o Sertão, desde o país das Alagoas até a nação baiana. Que pedra eu colocaria no centro do livro Pedra Só, hoje, depois de ter passado por um bocado de aperto e de ter experimentado um monte de delícia? A mesma pedra fundante desse delírio, que sou Eu. Pedra. Só.

Uma imagem contendo Padrão do plano de fundo

Descrição gerada automaticamente

MK - Quando você lançou Sete, a estrutura numérica organizou o próprio corpo do livro. Lembro do seu fascínio pelo simbólico: o que o número sete revela de você mesmo, poeta, homem, filho do sertão e do mito?

JIVM - O Pedra Só é de 2012 e o Sete, 2015, que é meu sétimo livro. Esse livro surgiu de uma pergunta que eu fiz para minha mãe. Lá em casa, somos cinco irmãos homens vivos. Eu sou o terceiro. Só que minha mãe teve nove filhos. Então perguntei a ela, na sequência dos nove filhos, onde eu estava situado, qual o meu número? Ela disse, você é o sétimo. Como estava iniciando a escrever meu sétimo livro, pensei: “poxa, eu sou o sétimo filho, é o meu sétimo livro, vou nomeá-lo de Sete”. E aí, de cara, começou a se desenhar no meu ser o 7 - sete dias das semanas, sete notas musicais, sete pecados capitais. Enfim, tudo o que permeia o número sete, que é o número bíblico da plenitude. E eu fui buscar poéticas que tratavam do sete. Depois do livro pronto, na hora de publicar, escolhi a editora 7Letras, pra ficar tudo na casa do sete. E dentro da mitologia judaico-cristã, presente na Bíblia, Seth é o nome do terceiro filho de Adão e Eva. Então tinha tudo a ver eu ser o terceiro filho vivo. Porque é o sete de qualquer maneira. E dessa forma escolhi também fazer três capas diferentes para o livro, numa tiragem de 2.100 exemplares. Cada capa com setecentos exemplares. O livro é composto de sete capítulos. Cada capítulo, dividido em sete partes. Algumas delas, compostas exclusivamente com versos de sete sílabas, que é a redondilha maior. Então o livro Sete veio com a potência de pintar o sete e de cantar no ritmo das sete sílabas. Tem um poema chamado Concerto para Cavalos, que é dividido em sete partes e, cada parte, dividida em sete estrofes, e cada estrofe composta de dísticos em redondilha maior. Há também um poema intitulado A Virgem Universal do Reino do Sétimo Filho, feito em trovas heptassilábicas. Posteriormente fiz um vídeo convidando 49 pessoas ligadas à comunicação e às artes. Cada um dizendo uma estrofe. E foi muito legal. Chamei colegas de profissão, somos jornalistas, você e eu. Convidei amigos íntimos e pessoas que admiro, que estavam mais acessíveis, mais próximas naquele momento. O Sete também me rendeu uma premiação badalada, que foi o Prêmio Quem. Mas que fique bem claro, não meço um escritor ou um livro por premiação. Tenho visto muitos escritores ganharem prêmios com livros pífios, que não me dizem nada.

MK - Em Garatujas Selvagens, premiado pela UBE/RJ, a palavra “selvagem” soa quase como uma senha para o seu trabalho. O que ainda é indomado em sua escrita, mesmo depois de tantos livros publicados?

JIVM - Garatujas Selvagens é o meu livro mais recente, sendo que ele foi publicado em 2021. O anterior, Entre a estrada e a estrela, é de 2017. Eu nunca havia passado um intervalo de tempo tão grande entre um livro e outro. E o intervalo só está crescendo. Mas estou fechando um livro a ser publicado, no mais tardar, até abril do próximo ano, 2026. Então, Garatujas Selvagens é um livro que foi gestado antes da pandemia, aliás, o último capítulo foi feito durante essa tragédia que assolou o planeta. Nele está a busca do rabisco rupestre, a busca da expressão primordial da arte. É selvagem no sentido do que ainda permanece natural, do que ainda tem uma pureza, uma inocência. É uma fuga da civilização, um descanso no seio da origem, um sonho que regressa ao traço primitivo. Eu que venho de um sertão que é tão rabisco, o que mais tem por lá é espinho e cascalho, ou seja, bico de pedra e espinho de cactos. Garatujas Selvagens quer arranhar e deixar a cicatriz clara do poema, usando um verso de um poeta da minha predileção, que é João Cabral de Melo Neto. E também traz muito o traço e a presença da finitude, visto que foi escrito em uma época em que as pessoas estavam morrendo, tendo a vida interrompida de uma forma bizarra. E ficava bem claro o quanto tudo isso aqui é uma ilusão, o quanto tudo isso não tem sentido nenhum. E eu estou me referindo à existência. E é por isso que nós lutamos tanto para conferir algum sentido a essa existência. E esse delírio, essa ilusão da arte é o que traz um certo conforto para a gente. Quanto à premiação, claro que eu sou muito grato por ter recebido essa distinção. Mas o que importa mesmo é a poesia, não é? O que importa mesmo é a poesia que sinto e que publico. Escrevo por premência, publico também por necessidade. E quando a gente publica, a gente quer ser lido. Então, quando o livro alcança o leitor, para mim, é uma glória. E digo mais, Kátia, o leitor comum. Claro que quero ser lido por críticos, por colegas, por pares, por poetas maravilhosos como você. Mas o meu regozijo mesmo, a minha glória, é quando meus livros são lidos por uma pessoa que não conheço. Enfim, minha glória é ser lido por uma humanidade.

MK - Você sempre foi mais do que poeta: curador, produtor, agitador cultural. O sarau, por exemplo, se tornou um marco de resistência e celebração. O que você sente quando vê pessoas anônimas e conhecidas se reunirem em torno da palavra falada?

JIVM - De fato, amo muito esse movimento de gente reunida em torno da literatura, sobretudo em torno da palavra poética. Todo meu movimento, enquanto artista da palavra, é pautado em levar a poesia a qualquer plaga que esteja disposta a me receber, ou que se ofereça ao meu olhar. O meu é andar por aí e abrir o peito e botar a palavra para galopar no vento. Quando fui morar em Salvador, em 1998, isso uma década depois de ter chegado à Bahia e ficar plantado no meio do mato, entre o Vale do Jiquiriçá e a Chapada Diamantina. Quando cheguei a Salvador, em 1998, buscava nos jornais qualquer evento que tivesse ligado à literatura. E claro que encontrei logo a minha tribo, os poetas, o meu povo. Elizeu Moreira Paranaguá, que é meu irmão, meu grande amigo, foi o primeiro que tive a alegria de conhecer. Você também foi uma das primeiras pessoas que conheci - uma jornalista muito competente, muito admirada. Aos poucos, a própria poesia foi aproximando a gente. Então é isso, cheguei querendo fazer. Se há uma palavra que me define bem, é a prontidão. Com esse meu ímpeto, comecei a realizar coisas, mesmo sem saber fazer direito. Copiava os outros eventos que assistia e ia fazendo. Quando cometia algum erro, no evento seguinte já corrigia. E fui ocupando o lugar de quem faz as coisas. E, naturalmente, as pessoas começaram a me procurar para fazer curadoria de grandes eventos. Na verdade, tudo isso, pode ser resumido da seguinte maneira: eu tenho uma religião e sou muito devotado. A minha religião é a poesia. E, nesse sentido, sinto-me um apóstolo da palavra poética. Saio por aí, pelos quatro cantos, por qualquer plaga, por qualquer rincão, por qualquer sertão, levando a palavra poética.

A minha religião é a poesia. E, nesse sentido, sinto-me um apóstolo da palavra poética. Saio por aí, pelos quatro cantos, por qualquer plaga, por qualquer rincão, por qualquer sertão, levando a palavra poética.

MK - A oralidade, a performance, o corpo em cena sempre fizeram parte de sua relação com a poesia. Como você prepara sua voz para que o poema respire diante do público? Há diferença entre escrever para o papel e escrever para a voz?

JIVM - Simples, vivendo a poesia, portanto estou sempre a me preparar, e estou sempre preparado. O ato de recitar, de dizer poemas, de ler poemas, sempre fez parte do meu processo. Aliás, a leitura em voz alta é uma coisa muito comum na minha vida e em minha casa, com minha mulher e com meus filhos. Para você ter uma ideia, li em voz alta Um defeito de cor, da Ana Maria Gonçalves, livro que tem 950 páginas. Essa leitura foi feita em parceria com minha mulher, Linda Soglia - eu com um exemplar em mãos e ela com o Kindle. A gente lia uma hora por dia. Cada um lia duas páginas, um acompanhando a leitura do outro. Com meu filho mais velho, Moisés, tive uma das experiências mais lindas da minha vida, que foi ler O Grande Sertão Veredas juntos, quando ele completou 18 anos. Lemos também Crime e Castigo, de Dostoiévski, proferindo cada palavra. Com meu caçula, Gabriel, li também em voz alta Cem anos de solidão e O amor nos tempos do cólera, ambos de Gabriel Garcia Márquez. Para mim, esse gesto é a grande herança, é o meu principal legado. Olha só, até agora falei apenas de livros de prosa. Leio com a minha família mais prosa, sempre ouvindo a voz do outro, sentindo a cadência de cada palavra dita, o ritmo de cada frase. É uma hora por dia com cada um. Aí acontece de ter época de ficar, três horas por dia, lendo em voz alta com a família - fora as minhas leituras silenciosas, fora os inúmeros poemas que declamo em casa.

Gosto muito de andar, portanto faço muitas caminhadas e sempre levo um livro comigo. Quando encontro uma árvore - um imbuzeiro, uma algarobeira, um pé de pau-ferro - onde há sempre muitos pássaros e outros bichos ao derredor, vacas, bois, cavalos, paro e começo a recitar para essa plateia extraordinária. E é mágico, é uma coisa... Porque ali, de humano, só está essa figura que sou eu, cercado por aquela natureza, a caatinga, às vezes de tonalidades de verdes exuberantes, e outras, como essa época agora, outubro, uma sequidão terrível, que justifica o nome caatinga, mata branca, onde só tem garrancho, espinho e aquele chão de tez quase branca. Eu me entendo como um intelecto, como um espírito que ocupa um corpo. Esse corpo é usado, mas usado mesmo, o tempo todo, para exibir a poesia, para exibir a literatura. Dessa forma, também me exibo. Aliás, sou um sujeito muito exibido. Porém, dentro do que faço, quem tem que aparecer em primeiro plano é a palavra, é o texto, é o poema.

E sobre se há diferença entre escrever para a voz alta ou escrever apenas para o papel, não sei lhe falar sobre isso, porque o que escrevo é de um jeito só. Escrevo para o papel, entendeu? Mas sinto que há poemas que funcionam melhor para serem recitados do que outros. E posso lhe dizer que um poema de longo fôlego cansa a plateia, em geral. E um poema minimalista, muito curto, não surte o efeito imediato no público. Um soneto, ou algumas sextilhas rimadas surtem um efeito maior, assim como os poemas em versos livres que durem entre um e três minutos. Na minha prática, é necessário que o texto seja dito com clareza, que a voz esteja bem postada, cadenciada, e que tenha alcance para que chegue no outro com o máximo de potência, de impacto. É preciso perceber o ritmo do poema, ter intimidade com o texto.

MK - Suas curadorias na Bienal da Bahia, em Maracás e na Flipelô abriram espaço para poetas diversos, novos e consagrados. Quando você seleciona autores, o que procura, afinidade estética, impacto social, experimentação formal?

JIVM - A questão da curadoria, Kátia, é muito relativa. É preciso levar em conta também que não faço curadoria apenas de poesia. Faço uma curadoria que normalmente fico, sim, responsável pela parte de poesia, já é até uma marca, mas também contemplo mesas com temáticas diversas e/ou rodas de conversa. Você citou a Bienal do Livro, a Flipelô, citou projetos em Maracás, mas fui curador do Centenário de Jorge Amado, em Ilhéus, coordenei projetos em Jequié e na Casa das Rosas, em São Paulo. E uma questão que é importante nas curadorias é o recorte que é feito. As bienais, as festas literárias, quase sempre homenageiam escritores, então a gente tem que contemplar os homenageados na programação. E há eventos que elegem temas. Por exemplo, já fiz a curadoria de um Feira Literária cujo tema era o Oriente Médio, então eu tinha que trazer escritores do Oriente Médio e escritores brasileiros que têm um diálogo com a produção artística do Oriente Médio. Você pergunta que traço busco na minha curadoria de poesia. Procuro tudo o que você citou, mas o que prevalece não é meu gosto, minhas afinidades, o que prevalece é a força do texto, que pode ou não me agradar. Na verdade, quanto mais o texto me incomoda, mas vontade tenho de convidar seu autor. Mas, às vezes, a gente está diante de um poeta muito jovem, que está estreando e a gente percebe que ele tem um brilho ao recitar, que tem uma impostação de voz muito boa, aí a gente abre espaço para ele, porque o sarau é um momento de espetacularização da palavra poética. Então são vários aspectos que vão direcionar as escolhas que nós fazemos, desde o recorte temático, desde os homenageados, passando pela habilidade de cada pessoa para cada momento ou para cada espaço, seja o recital, seja a palestra, seja a roda de conversa.

Acabei de chegar do Hemisfério Norte, ou seja, estava na cidade de Macapá, capital do estado do Amapá, no extremo norte do Brasil, onde aconteceu a Folia Literária Internacional do Amapá, da qual sou um dos curadores. Veja bem, a Folia Literária é um evento do governo do estado. Então, quais são os recortes que nós fazemos? Priorizar escritores do estado do Amapá, em seguida, escritores da Amazônia, depois escritores das outras regiões do Brasil e escritores de outras partes do mundo. E outra coisa, os homenageados são sempre personalidades do estado. Então tem que haver, pelo menos, uma roda de conversa, uma palestra em torno de cada um dos dois convidados, que são sempre um homem e uma mulher, vivos. Enfim, a depender do lugar, de quem esteja patrocinando, da homenagem que é feita a personalidades ou a temas, o recorte se estabelece. Você vai buscar escritores que dialoguem com aquilo que você está referendando dentro da temática do evento, seja festa, seja feira, seja folia, seja bienal. Em Macapá é a Folia Literária Internacional do Amapá, que no próximo ano vai para a quarta edição. Sou um dos curadores desde a primeira, o que para mim é uma glória, porque exercer a revolucionária inocência da poesia, no calor imenso de Macapá, sentindo o sopro lírico da entidade aquática, que é o Rio Amazonas, é uma benção.

Em Macapá é a Folia Literária Internacional do Amapá, que no próximo ano vai para a quarta edição. Sou um dos curadores desde a primeira, o que para mim é uma glória, porque exercer a revolucionária inocência da poesia, no calor imenso de Macapá, sentindo o sopro lírico da entidade aquática, que é o Rio Amazonas, é uma benção.

MK - Nos seus livros, a mitologia grega convive com a paisagem nordestina. Como você consegue equilibrar o mito universal e a raiz sertaneja sem que um engula o outro?

JIVM - Nos meus livros, é marcante a presença das mitologias greco-romana e judaico-cristã. Li a Bíblia quando tinha 12 anos e foi uma coisa muito marcante. E de cara percebi que aquele cenário da Bíblia era o mesmo cenário do sertão onde eu vivia. E os heróis que aparecem nas tragédias greco-romanas e na Bíblia são muito parecidos com os heróis com os quais convivi. Sejam os vaqueiros, sejam as rezadeiras, os aboiadores e os cantadores de feira. E mais tarde percebi que havia também uma influência forte, uma presença marcante do canto árabe no aboio do vaqueiro. Os mouros estiveram durante muito tempo na Península Ibérica e os portugueses trouxeram essa cultura para o sertão. O equilíbrio desse caldo cultural acontece da forma mais espontânea, porque convivo familiarmente com os mitos clássicos, colocando-os em pé de igualdade com minha mitologia pessoal. A minha poesia, ela parte, sim, da oralidade, porque venho de um ambiente onde os vaqueiros cantavam o tempo todo, os cantadores de feira, os repentistas, com suas violas marcando o compasso de cada verso, de cada estrofe, os cantadores de coco com seu pandeiro, sincopando e improvisando para sobreviver. Dialogo o tempo todo com essa tradição. Mas a minha poesia é uma poesia feita para o papel, pensando em se sustentar ali no papel em branco, ou na tela do computador. Se bem que escrevo boa parte do que faço em cadernos. No mínimo, noventa por cento da minha produção é feita em uma rede com um caderno na mão e um lápis ou uma caneta. Quando é um lápis grafite, o poema tem um ritmo mais lento, mais macio. Quando é com a caneta, normalmente uma pilot 1.0, o ritmo é bem mais acelerado. E o poema normalmente fica mais extenso também. E, outras vezes, faço ao ritmo do galope do meu cavalo, cavalgando e soltando os versos à imensidão.

Homem sentado com celular na mão

Descrição gerada automaticamente com confiança média

Foto: Ricardo Prado/Divulgação

MK - Quando você lê a si mesmo em tradução, o sertão viaja. Há imagens que sobrevivem melhor nessa travessia? Você já se surpreendeu ao se reconhecer em outra língua?

JIVM - Minha poesia foi traduzida para pelo menos uns oito idiomas. Tem uma antologia, O filho do Sol - El hijo del Sol, publicada em espanhol, no México e agora foram traduzidos cem poemas para o inglês, para uma publicação na Índia. Fui convidado para participar de um festival em Goa, na Índia, por conta dessa antologia. O nome do livro é Song of the Sun - Canção do Sol, que conta com tradução de Jessi Fuller. O convite foi para fevereiro de 2026, mas olivro a ser lançado na Índia não vai ficar pronto até lá. Pedi, então, para que a minha participação ficasse para fevereiro de 2027. Talvez tenha sido uma burrada, porque até lá tudo pode mudar. A gente é convidado agora e logo em seguida é desconvidado e já era. Mas, enfim, eu não estava me sentindo à vontade de ir para a Índia sem o meu livro pronto. Sobre se reconhecer em outra língua, só posso falar apenas das traduções para o espanhol, que aconteceram na Colômbia, no México e na Espanha. Leio muito em espanhol, aliás, quero dizer que cinquenta por cento da minha leitura hoje em dia é em espanhol. Eu adoro ler em espanhol. Se eu falo fluentemente em espanhol, não, não falo, mas leio e compreendo muito bem.

Minha poesia foi traduzida para pelo menos uns oito idiomas. Tem uma antologia, O filho do Sol - El hijo del Sol, publicada em espanhol, no México e agora foram traduzidos cem poemas para o inglês, para uma publicação na Índia. Fui convidado para participar de um festival em Goa, na Índia, por conta dessa antologia. O nome do livro é Song of the Sun - Canção do Sol, que conta com tradução de Jessi Fuller.

Quanto às surpresas da minha poesia em espanhol, surpreendo-me, sim, mas me reconheço facilmente porque tenho uma intimidade poética com a língua hispânica e o meu sertão alça um voo lindo nesse idioma. Sinto-me muito à vontade em ler minha poesia em espanhol. Tanto a leitura silenciosa quanto em voz alta. E adoro ouvir outras pessoas lendo minha poesia em espanhol. Nos demais idiomas, não tenho a menor condição de dizer nada, por não ter o mínimo conhecimento. Só um pouquinho em inglês. Gosto da sonoridade e entendo algum rudimento. Quando nós participamos da antologia Autores baianos: um panorama - você, eu e outros escritores baianos – iniciativa da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que foi publicada na Alemanha, acho que em quatro idiomas, sendo um deles o alemão, é claro, a pessoa que fez a tradução dos meus poemas para o alemão, mandou-os para mim pedindo que eu fizesse uma revisão. Eu quase morri de rir, porque eu não sei absolutamente nada de alemão. Como é que eu iria poder fazer uma revisão? Mas fico muito contente por ter os poemas traduzidos, só não tenho a menor capacidade de revisar, nem em inglês, quanto mais em alemão. Preciso dizer que gosto que meus poemas sejam lidos, em português ou em qualquer outro idioma. E gosto muito quando as pessoas gravam vídeos dizendo minha poesia e mandam para mim. Gosto sim, gosto muito. Ser um poeta lido para mim é uma glória. E já é o suficiente.

MK - Para terminar, vou pedir uma imagem, dessas que só você sabe inventar. Se pudesse resumir sua trajetória até aqui em uma cena poética, que cena seria?

JIVM - Assim é minha criação,

uma revolta por dentro,

um espetáculo trágico,

um grande acontecimento,

que só encontra sossego

quando se espalha no vento

e alcança todas as plagas

até ser esquecimento.

Confira abaixo “Um parêntesis para sempre”, poema do livro inédito, homônimo, a ser publicado no primeiro semestre de 2026 por José Inácio Vieira de Melo, e o vídeo gravado na beira do rio Macacoari, em Curicaca, Ataubal, no estado do Amapá, na Floresta Amazônica, no pós Folia Literária Internacional do Amapá, em 6 de outubro de 2025.

UM PARÊNTESIS PARA SEMPRE

É esta sede de vagalumes no sentimento

que me faz regar os tesouros do teu trigal.

Os teus sussurros

são estribilhos da ternura

e algazarras da glória.

A mesa está posta e no prato

não há estreituras nem migalhices.

A proporção da ceia

que nos oferecemos

assanha quenturas,

relíquias de precipícios

que nos lançam ao voo.

Teus requebros, teus gozos,

cultivos da minha língua

sobre tuas pétalas encendidas.

Atravessei a baía para inscrever

os arabescos da caatinga no teu íntimo.

Formiga, agora, no teu povoado

o farolejar dos mistérios,

nascedouro de milagres

onde a razão não impera.

(Todos estes símbolos se escolheram

para compor a fotografia daquele beijo

que há de se perpetuar por milênios).

POEMA & VOZ josé Inácio vieira de melo

MÚSICA & VIOLÃO Thiago de mello

MÚSICA E CAIXA DE MARABAIXO nena

CÂMERA josé-manuel diogo

ILUMINAÇÃO clicia di micili & annie de carvalho