João Matos

Crédito da imagem: Claude Dityvon, Cache-toi objet!, 1968. 

Durante os acontecimentos do Maio de 68, na França, popularizou-se o ato de protestar por meio da inscrição de palavras de ordem nas paredes de instituições importantes. Um desses grafites, presente nas escadarias da Sorbonne Université, “Esconda-se, objeto!”, é lido como um rechaço à forma como a racionalidade moderna reduziu a categoria do sujeito nas ciências. 

O que se entendeu, naquele contexto, é que o sujeito não deveria ser uma mera engrenagem do progresso científico, mas sim um elemento crítico que goza de uma “liberdade radical”. É a partir disso que a socióloga Violette Morin empreende uma reflexão sobre o que denomina como “objetos biográficos”.

Morin assinala que as relações entre os sujeitos e os objetos são vividas de forma embaraçada: “já não é o sujeito que faz o objeto, mas o objeto que faz o sujeito”. O elemento que definiria a identidade dos sujeitos seria o seu consumo dentro de um “sistema de objetos” (Baudrillard, 1968), como “os óculos ao intelectual, o cachimbo ao diletante, a geladeira ao burguês, a biblioteca ao letrado…”. 

Nesse sentido, a autora se propõe a distinguir os objetos entre “protocolares”, ou cosmocêntricos, e “biográficos”, ou biocêntricos. Os protocolares são aqueles que possuem algum valor de uso, que podem agregar algo à atividade consumidora dos sujeitos – como, por exemplo, um livro antes de ser lido ou um caderno em branco. Aos objetos biográficos é atribuído um determinado valor simbólico que se relaciona com a identidade do sujeito – uma biblioteca particular, as fotografias, as cartas, os diários… Ou ainda, nas palavras de Morin, os objetos “estão em simbiose viva com seus possuidores, envelhecem ao mesmo passo que eles, incorporam-se às suas atividades”.

É importante para Morin tratar desses conceitos para criticar a caracterização do filósofo Jean Baudrillard ao falar do “sistema dos objetos”, já que, para a autora, o consumo dos objetos também está relacionado a um certo grau de desejo ou afetividade, o que ela denomina de “voluptemas”. 

Vejo nessa reflexão de Morin a possibilidade de pensar como nas obras que investigo, A Água é uma máquina do tempo, de Aline Motta (2022), e Triste não é ao certo a palavra, de Gabriel Abreu (2023), os documentos pessoais ou históricos que também compõem as narrativas, podem ser considerados objetos biográficos, e de que maneira é possível pensá-los a partir de uma relação afetiva com o sujeito que é recuperado pela memória da escrita (a bisavó, no caso de Motta; a mãe, no caso de Abreu). 

Será possível pensar, por exemplo, que o diário infantil, no qual a mãe de Abreu registrou o crescimento do filho, cria uma relação simbólica com a figura de sua mãe, já adoecida, capaz de franquear o acesso à identidade de sua mãe? Ou ainda, no caso de Motta, como pensar na reprodução de mapas que registram as ruas nas quais seus ancestrais viveram?

Empreender uma reflexão a respeito dos objetos biográficos nos meus objetos de estudo é importante para pensar o que constitui o “biografismo imanente” dessas escritas.