Madame K - Você escolheu o nome “Cacau Novaes” como identidade literária. Qual foi o momento ou a razão que fez você assumir esse nome artístico, e o que ele significa para você hoje?
Cacau Novaes - É um apelido de infância. Surgiu por conta de meu irmão mais novo, ainda bebê, não conseguir pronunciar o meu nome, José Carlos. Daí, se transformou em uma forma carinhosa de meus familiares e amigos se referirem a mim. Quando publiquei meu primeiro poema em uma antologia, usei o meu nome de registro, mas, ao publicar o meu primeiro livro individual, passei a assinar deste modo, que já usava como produtor de eventos culturais. No entanto, tenho dois livros, resultados de pesquisas acadêmicas, que, por questões formais, são assinados como José Carlos Assunção Novaes.
MK - Você nasceu e trabalha na Bahia, com forte vínculo com a cena literária local. De que forma o cenário cultural de Salvador e da Bahia moldou sua voz poeticamente, seja em tema, linguagem ou intenção?
CN - Eu sou natural do interior da Bahia, de Iguaí, mas cresci envolvido pela cena cultural de Salvador desde criança, e também, de uma certa forma, da Bahia. Minha mãe era uma professora, também escrevia textos, e uma entusiasta da história e da cultura da Bahia. Então, ela me envolveu, desde cedo, nesse ambiente de literatura, música e arte, de um modo geral, do nosso estado e do nosso país. Vim morar ainda adolescente em Salvador e me encontrei com uma vida cultural e uma cena literária muito ativa, o que não havia no interior da Bahia.
MK - Como poeta que também organiza saraus e curadoria, você vive ambos os lados: o de produtor e o de performer. O que acontece para você quando a poesia sai do papel e chega ao palco de um sarau? Quais mudanças de energia ou de linguagem você percebe?
CN - Eu escrevo desde criança. Escrevi meu primeiro poema aos 8 anos de idade. Mas o contato com o teatro e, mais tarde, com artistas e poetas de rua mudou o meu modo de encarar o texto e o poema, por exemplo. Percebi que ele poderia ser recitado, declamado e, até mesmo, dramatizado. Inclusive dirigi, durante o período em que trabalhei como professor em Iguaí, um grupo de teatro que trabalhava principalmente com textos poéticos. Toda essa experiência modificou o meu modo de encarar a poesia. Outra coisa importante também foi a participação em festivais de poesia e, posteriormente, em saraus.
MK - No evento “Nosso Sarau”, você cria espaço para outros autores, diferentes linguagens e formação de plateia. Qual é a função social ou comunitária que você atribui ao sarau, e como isso dialoga com sua poesia autoral?
CN - O Nosso Sarau é fundamental para a divulgação de autores e difusão da poesia e da literatura, de um modo geral. O evento surgiu de uma ideia de criar algo de forma coletiva, principalmente pelo fato dos autores da Bahia e de Salvador terem poucos espaços para a divulgação de suas obras. Reunimos também músicos, performers e outros artistas que queiram mostrar o seu trabalho, mas com um foco na literatura. Por isso mesmo, sempre levamos um(a) convidado(a) para falar de sua trajetória literária e de seus livros. Ao mesmo tempo, contribuímos para a formação de plateia, já que estamos, desde 2018, com a participação de um público que sempre frequenta e também um público rotativo que aparece por causa de convite de amigos e da divulgação do evento. Há um diálogo com a minha poesia autoral e também com a de todos os poetas que participam, o que é muito importante.
MK - Sua produção literária traz livros como “Você não sabe do que é capaz”. O que você buscou dizer com esse livro e que “voz” você sentia que precisava encontrar ou assumir ali?
CN - Em “Você não sabe do que é capaz”, pela primeira vez, eu resolvi publicar poemas falando de amor e erotismo. Era algo que eu sempre me recusei a publicar. Não queria associar a minha obra à questão sentimental ou amorosa, por achar isso algo muito particular. No entanto, fui criando poemas que não necessariamente refletiam uma realidade pessoal, mas experiências que dizem respeito a qualquer pessoa ou a um relacionamento qualquer. Dessa forma, eu assumo a voz dos amantes, os que amam de corpo e alma, mas sem cair no lugar comum e, ao mesmo tempo, também não precisar se importar com isso, pois como já dizia Fernando Pessoa, “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
MK - Em paralelo à poesia, você também desenvolve trabalho de pesquisa linguística — por exemplo o livro Português AfroBrasileiro: O preenchimento do sujeito pronominal na comunidade quilombola de Lagoinha. Como essa faceta acadêmica se conecta com sua poesia? Existe diálogo consciente entre os estudos linguísticos e o verso?
CN - Os trabalhos de pesquisa linguística, mais precisamente na área da sociolinguística, foram resultados do mestrado e do doutorado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na verdade, não há uma relação direta ou um diálogo entre os estudos linguísticos e o verso. No entanto, o olhar de um poeta, de um ficcionista, é um olhar diferenciado, o que faz com que essas pesquisas tenha um diferencial, mesmo que indiretamente.
MK - Quando você escreve, qual o tempo que privilegia — o intimista, o comunitário, o regional, o universal? Você se considera mais poeta da interioridade ou da cidade, da alma ou do coletivo?
CN - Há textos intimistas, como em “Você não sabe do que é capaz”, “Fonte de Beber Água” ou até mesmo em “As sandálias”, há textos mais universais, como em “Os poetas estão vivos”, “Eu só queria ver o pôr do sol” e “Marádida”. “Fonte de Beber Água”, por exemplo, tem, de certa forma, um caráter regional, apesar de ser também intimista e universal. Desse modo, não há um espaço delimitado em relação a essas questões. O mesmo digo em relação a ser um poeta que fala tanto do interior, quanto da cidade, tanto da alma, quanto do coletivo.
MK - A linguagem dos saraus pode ser oral, performática, imediata. Você adapta poemas para o palco ou pensa já no poema “feito para ser falado”? Qual o papel da voz, do corpo e da sala nessa composição?
CN - Eu adapto o poema para o palco. Sempre escrevi o texto para a leitura, mas quando vou realizar uma performance, procuro incorporar outras linguagens, como a do teatro, por exemplo. Sendo assim, a voz, o corpo e o local onde a apresentação acontece são muito importantes, pois é preciso adaptar de acordo com esses critérios. Por exemplo, se a performance acontece em um local fechado, teatro, biblioteca etc. ou em uma praça ou espaço público aberto.
MK - Levando em conta sua atuação como mediador de literatura (curador, produtor de eventos), que lacunas você enxerga na cena literária da Bahia hoje — e que mudanças você gostaria de ver ou provocar?
CN - Um olhar maior para a produção literária brasileira contemporânea feita na Bahia. Há uma grande efervescência literária na atualidade, uma grande produção que está acontecendo. Muitos autores(as) publicando bons textos, editoras locais que também têm um trabalho que não deve nada aos outros eixos nacionais. Enquanto curador, produtor de eventos, quero provocar esse olhar e a necessidade de espaço para que esses trabalhos sejam mostrados e vistos. Por isso mesmo, acho importante a realização de eventos como o Nosso Sarau (evento produzido por mim) e outros que acontecem em Salvador. Em relação, por exemplo, às festas literárias, faz-se necessário dar um espaço maior aos escritores que produzem na Bahia e deixar de prevalecer autores de outros estados e/ou países. Não que estes não devam ser convidados, mas é preciso que a literatura brasileira feita na Bahia seja a vitrine desses eventos. E claro que com uma maior diversidade, abrindo a possibilidade para autores menos conhecidos participarem também.
MK - Pensando agora em livro novo ou em projetos: há algum tema ainda não explorado ou forma que você deseja experimentar (misturar poesia + áudio, vídeo, performance híbrida)?
CN - Penso em audiobooks, por exemplo, de livros já publicados. Já fiz alguns clipes-poemas, mas gostaria muito de ampliar essa produção. Acho importante que o poema e o texto de um modo geral não fiquem restritos ao papel. É interessante e até relevante que eles ganhem outra dimensão, principalmente em relação ao audiovisual. Por enquanto, são só projetos que, quem sabe, conseguirei pôr em prática.





