Podemos muitas vezes acreditar que a verdadeira realização da vida está intimamente relacionada ao sucesso financeiro. A justificativa pra isso encontramos em vários autores, sendo o mais notório deles Max Weber e seu clássico “A ética protestante e o espírito do capitalismo”.
De fato, o capitalismo impregnou no mundo uma mentalidade reducionista, que transforma o sujeito em uma máquina de produção, cuja eficácia da existência está diretamente ligada ao quanto ele consegue produzir. E lógico que o sinal visível de toda essa produção é o perceptível sucesso financeiro.
Um materialismo extremo, que limita a vida ao status social, ao acúmulo de poder e à riqueza que isso implica. Todo mundo conhece alguém assim e muito provavelmente você tem algo disso ou até mesmo tem nisso também um de seus objetivos de vida. Evidente que todos queremos viver bem, no pleno conforto e total ausência de preocupações. Ninguém gosta de chegar no meio do mês preocupado em como pagar a conta de luz. Só que estamos falando aqui de uma doença que entrou na alma das pessoas e colocou no topo das prioridades o conforto, o enriquecimento, o poder.
Pessoas assim tendem para o egoísmo e conforme o tempo passa começam a idolatrar a meritocracia, como se ela fosse a solução para todos os problemas. Como se não existissem situações em que esse abstrato conceito não bastasse.
A literatura está repleta de exemplos. Como a irretocável novela “A Morte de Ivan Illitch”, de Leon Tolstói. Lá, um homem amarga uma morte sofrida, solitária e vazia enquanto recapitula uma vida preenchida pela cobiça e aparências.
Além do mestre russo, vários outros autores tentaram arranhar a superfície desse complexo e universal sentimento. Entre eles, Erico Veríssimo e seu personagem Eugênio, o protagonista de um de seus livros mais vendidos: “Olhai os lírios do campo”.
O começo da obra é chocante, com uma moribunda consciente da própria morte e a necessidade de conhecimento de Eugênio da situação.
“O médico sai do quarto nº 122. A enfermeira vem ao seu encontro.
– Irmã Isolda – diz ele em voz baixa –, avise o doutor Eugênio. É um caso perdido, questão de horas, talvez minutos. E ela sabe que vai morrer”.
Erico é um dos maiores escritores brasileiros. Este não é o seu primeiro livro, mas é aquele que transformou o seu nome em sinônimo de vendas. Contudo, que fique claro que não temos aqui um de seus maiores feitos, muito pelo contrário. Ainda há nas nesta obra um cheiro do realismo e uma necessidade de construção de diálogos didáticos que explicam as nuances. Há um enredo pincelado com uma suave – quase imperceptível – dose de inventividade narrativa, assim como situações e personagens que muito nos lembram uma telenovela das 9h. Também pudera! A telenovela é uma herdeira do romance sentimental do século XIX. “Olhai os Lírios do Campo” é um livro na fronteira desse tipo de literatura.
Mesmo fazendo uma história simples, abarrotada de clichês e com certo volume de didatismo, um grande escritor precisa realmente esforçar-se muito pra fazer um livro genuinamente ruim.
O talento de Erico brilha quando ele relaciona todos estes elementos e consegue extrair dele enredo e lições capazes de atrair o público e tornar esta obra o sucesso que foi. Em suas mãos, o desfile do que parecia ser um conjunto de “lugares comuns” torna-se um amálgama de topoi. Ou seja, deixam de ser algo que só causaria desconforto e assumem o papel de engrenagens de efeito.
No começo que citamos já percebemos a habilidade prosaica do escritor quando ele, em poucas linhas nos entrega todo o panorama do que precisamos para entender o personagem. Eugênio é médico e precisa ser avisado sobre a morte iminente desta paciente. É uma paciente dele? Então o que faz o outro médico lá? É a esposa? Talvez. Uma amante: Possível.
As hipóteses serão levemente costuradas logo de início.
Eugênio é médico, bem-sucedido, vive uma vida confortável e precisa sair às pressas e em segredo para encontrar a moribunda. A mulher fica em casa e não parece ser o mais caloroso dos relacionamentos. Há um ar de desgosto na notícia de que ele irá sair, mas muito mais relacionada à percepção dele da situação do que de fato na constatação da esposa da possibilidade de algum ato extraconjugal. Ela é indiferente! Aliás, isso é mais um ponto de aproximação com as telenovelas. O romantismo tenta sempre justificar a traição. O traidor nunca é meramente um mau-caráter, ele trai porque há amor… ou falta dele.
Eça de Queirós denuncia essa ótica no seu livro “O Primo Basílio”, quando o primo reencontra com a prima e esta, já casada, começa a confabular um encontro amoroso. Na cabeça da mulher, há sonho com cachoeiras e flores; na realidade, um encontro em um quarto barato e sujo.
Mas lembre que Erico tá nesse entremeio. Ele pega um pouco do Realismo de Eça pra denunciar o materialismo, ao mesmo tempo que tenta construir um romance de sentimento, que apele pra o público e atraia pelo coração.
Não é o caso, definitivamente, de um escritor inepto. Até porque mais tarde teremos uma prova de que ele sabe disso, que ouviu e sabe fazer. Quando constrói, entre tantos personagens memoráveis de O Tempo e o Vento, o mulherengo Capitão Rodrigo… mas isso é outra história.
Eugênio pega um carro, recorrentemente tratado como “auto” – como era típico nesse sempre atrasado Brasil – e segue a toda velocidade para encontrar a mulher que vai morrer, Olívia.
Voltamos no tempo e encontramos um Eugênio menino, na escola, quando sem querer rasga suas calças bem na hora do intervalo. A meninada percebe, faz troça e junta-se em coro pra zombar. Descobrimos pela dor que o homem rico, o doutor Eugênio que encontramos no começo do livro, foi um menino pobre sofrendo bullying por conta da qualidade de suas vestes. Pra piorar, seu irmão mais novo, Ernesto, também participou do ato de troça e passa todo o caminho de volta com um ar zombeteiro no rosto, chegando ao ápice de contar para os pais a vergonha passada pelo irmão mais velho quando este só queria esquecer.
Os pais são pobres, a mãe lavadeira, o pai um alfaiate com tosse e magreza crônica. O cenário é de desolação e acompanhamos um episódio em que o velho alfaiate esconde-se de um cobrador por vergonha, por não ter como pagar. O resultado é uma cena de gritos e impropérios, humilhação e ameaças. Tudo na presença dos filhos, para derrota do pai.
Eugênio vê tudo indignado e promete ali que vingaria o pai por meio de seu próprio sucesso. É mais um daqueles padrões que estamos habituados. Toda esta estrutura de pobreza e miséria servirá de justificativa moral. O menino pobre que precisou “sobreviver”, que moldou seu egoísmo diante das humilhações da vida.
O mesmo que encontramos já na vida adulta, que pega um “auto” e vai correndo à procura da amante prestes a morrer.
O livro intercala as passagens no presente, com Olívia no leito de hospital esperando a chegada do amante para soltar seu último suspiro; com os momentos do passado, quando Eugênio recapitula sua trajetória e conseguimos não apenas entender sua construção como justificar, em parte, o comportamento mesquinho que apresenta.
É dessa estrutura entrecortada entre passado e presente que estou falando quando digo que há um leve gosto de inovação, porque todo o resto acontecerá muito dentro das linhas do permitido e previsto pela boa norma narrativa.
O irmão caçula não foge à regra dos padrões arquetípicos proposto pelo autor. É viciado em bebida, cai na marginalidade e aumenta em Eugênio a sensação de culpa e fracasso. Os pais que antes eram motor da vingança, agora são motivo de vergonha.
Certo dia, enquanto passeava pelas ruas com um colega do curso de medicina, encontra o pai na rua e ignora seu aceno e chamado. Amarga o arrependimento, sente todo o fardo e peso da culpa, mas não se move para reparar o dano. Eugênio, claro, ainda tem muito a aprender.
O livro é cheio destas passagens bobas, que sabemos que existem, que nos comovem, mas que já foram tão exaustivamente utilizadas em tantas formas narrativas que soa muito pobre e apressada quando encontramos mais uma vez. Principalmente quando olhamos com os olhos de hoje para o autor: Erico Veríssimo, criador de um dos grandes monumentos da literatura brasileira, O Tempo e o Vento. Lá Erico nos traz personagens carismáticos, complexos e enredos cheios de intrigas surpreendentes.
Mas isso é outro assunto, resta-nos olhar para os Lírios neste campo que definitivamente ainda são de um Erico em formação.
Enquanto na Morte de Ivan Illitch é o próprio fim que provoca a transformação no personagem; é a morte da única mulher que realmente amou que causa o despertar de Eugênio.
O personagem de Tolstói também buscou uma vida de conforto, fortuna e status. Também montou um casamento de conveniência e até uma família que, por sua própria natureza, nada tinha de realmente sua.
Eugênio conheceu Olívia ainda na faculdade. De origem pobre igual a ele, era com ela que ele sentia-se genuinamente bem. Justamente por ser também pobre, ele conseguia com ela despir-se de suas máscaras e confidenciar coisas que não conseguia com mais ninguém. Os dois apaixonam-se e mantém um relacionamento tão ardente como podemos esperar de uma boa telenovela das nove.
Eis que Olívia viaja e em sua ausência Eugênio conhece Eunice. Ele trabalhava como médico público e precisava atender muita gente pobre em um serviço nada glorioso. Certo dia atende uma empregada que cortou-se com uma lata de conservas… a mulher desmanchava-se em sangue e ele consegue salvá-la. Eunice o aborda e começa ali uma investida dela que mais parece a de uma caçadora à procura de sua presa.
Lírios do Campo é uma obra de 1938. Neste tempo, Freud era a sensação do momento. Ela é estudiosa do autor e Erico utiliza-se dela para pincelar conceitos. Os dois ficam juntos e se casam, afinal… ela é rica, muito rica. Eugênio deixa o serviço público, assume um cargo na firma da família só para “assinar papeis”. Leva esta vida até o dia em que reencontra Olívia.
Não que ele fosse completamente fiel, afinal, teve um caso extraconjugal com a esposa de um importante engenheiro. Porém, este é só o Eugênio canalha. O homem bom é aquele que habita com Olívia. Descobre que tiveram uma filha, uma menininha que já está lá com seus dois ou três anos. Com Eunice, claro, não teve filhos justamente porque ela não quis. Mais um topos na tabela: esposa frívola e sem pretensões maternas.
Ele sequer toma Olívia como amante, apenas passa a visitá-la para “criar a filha”. É o Eugênio real que começa a ser removido de toda a sujeira da ganância.
O reencontro com Olívia e a descoberta de que têm uma filha faz ele repensar toda a sua vida. Desenvolve intensos desejos de acabar seu casamento e assumir seu amor de uma vez por todas… busca forças… cria coragem… espera o tempo certo… que nunca chegou. Olívia é a morta do começo do livro e a sua morte inaugurará uma nova fase em sua vida. Com mais vitalidade para seguir seu verdadeiro desejo e desfazer-se completamente das aparências que nutriu.
Chega a colocar no jornal um anúncio procurando seu irmão, desaparecido desde o dia que brigou com ele e praticamente expulsou da casa dos pais. A morte de Olívia mata também o Eugênio de Max Weber. O capitalista à procura de poder e status.
Enquanto a primeira parte do livro respira belas lufadas de inventividade, mesmo que sutis, esta segunda parece arrastar-se. A partir de agora, Eugênio assumirá a criação de sua filha, abandonará a esposa e voltará seu trabalho para os pobres. Torna-se conhecido como um médico bondoso, que a todos ajuda e que sequer cobra quando percebe a pobreza do paciente.
Teremos episódios e mais episódios em que o médico salva a vida de gente muito pobre enquanto tem de lidar com dilemas deixados pela sua antiga vida e pelo desconforto de assumir sua verdadeira vocação.
Apesar de também ser um lugar comum, há a figura de um médico velho e pobre que serve como modelo e conselheiro. Um homem bom que, diferente dos demais médicos, não vê no dinheiro a razão da existência e que assume o arquétipo de Sábio durante essa trajetória.
Os solilóquios serão longos, cheios de didatismo, com os personagens verbalizando nuances que estavam postas mas que este Erico parece sentir necessidade de demonstrar.
Enquanto na primeira parte temos o intercalar de passado e presente, aqui o tom fica mais arrastado e monótono. Há um forte cheiro de intencionalidade moralizante. O livro ainda traz todo o tom social do final dos anos 1930, com direito a diálogos sobre judeus e regimes totalitários da Europa.
No final, temos um livro interessante, mas relativamente dispensável enquanto obra isolada, embora fundamental para a compreensão da trajetória de Erico. Eu sempre recomendo para os que querem conhecer Erico irem direto para o Tempo e o Vento. Lá temos uma narrativa muito mais vigorosa, com personagens cativantes e um enredo de tirar o fôlego. Aqui, entretanto, é um autor trabalhando ainda seus cacoetes. Porém, tudo tem seu lugar e função. Pra boa parte do público, acostumada a um romance mais frívolo, a narrativas mais básicas e cheias de padrões reconhecíveis, este é um livro que pode acertar em cheio e ajudar a introduzir um grande autor de nossa literatura.

