Foto: Lima Trindade

Madame K - Nos romances A dama do Velho Chico (2002) e Beira de rio, correnteza: ventura e danação de um salta-muros no tempo da ditadura (2010), a água e o São Francisco reconfiguram o “sertão das águas”. Como nasceu essa virada de perspectiva, do sertão “seco” para um sertão líquido, simbólico e universal?

Carlos Barbosa - Nasceu comigo essa perplexidade, Kátia. Muitas outras, também, claro. Mas, essa de ver e ter notícia de boi mugindo sedento do alto do barranco, a mirar as águas do rio, sempre me abalava emocionalmente, quando menino. Da mesma forma, a caatinga seca e a agricultura de sobrevivência que se praticava em incertezas, no meu trecho de rio, a poucas centenas de metros dessas mesmas águas. Cresci sabendo que a fartura vinha das ilhas próximas, inundadas na cheia, produtivas na vazante, que abasteciam a feira de sábado. Era espantoso: reza em procissão para pedir chuva pra plantação, na beira do grande rio! Minha família era do sertão de dentro e foi morar na beira do rio. Duas realidades vizinhas e bem distintas, que talvez perdure ainda nalguma banda do Velho Chico. Nossa casa era ponto de encontro dos parentes e amigos que vinham da roça pra cidade, pra vender suas coisinhas, remediar seus males. E eu ouvia suas narrativas de dificuldades e sonhos. A jornada do sertanejo-beiradeiro. Tudo isso enquanto o vapor subia e descia o rio. Era um excesso de estupor. Procurei compreender isso, historicamente, escrevendo os romances. Mas a ideia/conceito “sertão das águas” é criação do professor doutor Joseilton Bonfim, da Uneb, que trabalhou meus romances em suas dissertação de mestrado e tese de doutorado.

MK - Em Beira de rio, correnteza, a narrativa atravessa o período da caça a Carlos Lamarca. O que o interessava ali: a fricção entre memória e história, a política como pressão sobre a vida comum, ou o próprio rio como personagem?

CB - Há mais coisa ali. A escrita, pra mim, nasce de uma imposição incontornável da multidão que me habita. Ao me sentar pra escrever, no empurra-empurra das ideias, um tema exige desenvolvimento e não outro; algo que azucrina a mente e exige forma. Simples, assim. E a caçada a Zequinha Barreto e Carlos Lamarca (dia 17 de setembro fez 54 anos de suas mortes) esteve sempre na linha de frente dessa multidão. Foi um choque tremendo pra mim, pro lugar, pra região, uma invasão alienígena, por assim dizer. E eu era um menino de 13 anos, que havia perdido o irmão mais velho dois anos antes. Nossa casa foi invadida por um grupo de milicos, meu pai foi interrogado na obra porque era compadre de São João do velho Zé Barreto, a gente tinha familiares no Buriti Cristalino, essas coisas. Meus olhos e ouvidos dilatados por espanto e curiosidade seguiram e ouviram, com intensidade, aquela tropelia de ocorridos. O Velho Chico, pra mim, é um portento, por mais que a oficialidade e o empresariado o avacalhem. Não é mero cenário, é muito mais que um rio, sempre foi uma entidade multifacetada, presença inarredável e necessária, dominante. Passamos, ele não passa, sempre está. Suas águas alimentam e matam, concedem ou barram passagem, constrói e destrói, é força divina. Que se diga sempre algo sobre ele, não se pode permitir seu apagamento porque deixou de ser braço económico para além da produção de energia elétrica. E ali o rio foi barreira pra nossos heróis: não conseguiram atravessar, tiveram que fazer o caminho de volta pro sertão de dentro. O rio, naquela quadra, foi sinal de morte. O estrago também foi grande na vida das pessoas: muitos culpavam “os terroristas”, outros, os milicos, o exército, que tocaram o terror na região. Marcas que até hoje perduram. Em “Beira de rio, correnteza” tentei dar vazão a essa barragem, fazendo registro de acontecidos ainda inéditos e criando uma solução para o grande mistério: quem acoitou Zequinha e Lamarca, em Ibotirama, a Bom Jardim da minha ficção? Foi isso tudo, e ainda há mais coisa ali.

MK - Você transita entre o romance de fôlego e o “micro” dos minicontos — A segunda sombra (2010) e Obscenas(2015). Que decisões de linguagem mudam quando a unidade deixa de ser o capítulo e passa a ser a frase ou a centelha?

CB - Há quem diga que o miniconto não passa de argumento para uma narrativa mais longa. Por certo, desconhece que uma boa piada não deve, jamais, ser espichada, recheada ou decorada com penduricalhos. Deve ser dita de pronto, no repente. Quem puder que a capture. O mesmo vale para o poema. Não digo, com isso, que o miniconto é uma piada ou um poema em prosa, mas semelha em forma. Rápido, direto e caceteiro, como se diz em mesa de boteco. Essa distinção é posta pelo próprio tema, pela ideia que ocorre. É o material da escrita que determina o tamanho e o estilo da obra. A gente sente no manejo, no tratamento, se vai render mais ou menos. E a linguagem será aquela que melhor expressar, para o autor, o clima e a verdade da história que se conta. Trabalho mentalmente um tema, uma ideia, por algum tempo, depois faço uma anotação num arquivo e deixo quieto por algum tempo. Ou não. Posso me agarrar ao tema de forma obsessiva até desenvolvê-lo de forma satisfatória. O romance e o conto me agradam mais pelo teor de liberdade que oferecem. Há espaço para explorar aspectos laterais, bordas imaginárias, incidentes de percurso, desvios de rota, como pregava Laurence Sterne, novas paisagens, surgimento de personagens etc. No mais das vezes, a história simplesmente acontece, ou não, assim ou assado, sem maiores planejamentos. E é sempre preciso considerar a pessoa que escreve, sua disponibilidade, sua energia para a tarefa, seus outros interesses estéticos e comezinhos, seus acidentes pessoais de percurso. Dizem que Dalton Trevisan passou a escrever minicontos por conta de artrose nas mãos, que dificultava a datilografia. Não sei se é vero, mas quem escreve é ser humano, está sujeito a temporais e buracos na calçada. Tive uma fase muito produtiva em minicontos, que me rendeu dois livros a pedido de editoras, a Multifoco, do Rio de Janeiro, e a P55 Edições, para a coleção Cartas Bahianas, o que muito me gratificou. Não controlo, mesmo, o que escrevo.

MK - Em Obscenas você escreveu que “a vida no Brasil… pode ser descrita como uma cascata de obscenidades”. O miniconto, para você, é um modo de apreender a violência do cotidiano sem perder densidade poética?

CB - Escrevi, foi? E olhe que o fascismo bostificado ainda não havia cravado os dentes no Poder, hein?! Mas não se trata apenas disso, há entre nós uma cultura de estratificação social de forte teor escravista, racista, machista, homofóbico, de um evidente descaso para com a pobreza e o sofrimento alheio, que me assusta e me desalenta. È essa enxurrada de imundícies diárias que alimenta manchetes pavorosas. E olha que 2015, ano de lançamento de “Obscenas”, já vai longe e saudoso... A PEC da Bandidagem é mais que um exemplo dessa obscenidade. Publicava minicontos no blog meio que a cronicar esses sustos e desalentos que me pesavam e pesam. Não há como espanar a maquiagem de narrativas oficiais ou midiáticas, ou mesmo desvelar raízes da violência urbana e domiciliar sem recursos poéticos, penso eu, pois somente assim é possível expor verdades, nem que seja apenas a verdade do meu olhar sobre. Proseando livremente como quem prega recado num mural. Às vezes me surpreendo com o entendimento de que tudo não passa de responder a uma ou duas perguntas: será que não estão vendo isso que vejo, sentindo isso que sinto? Engraçado é que tive dificuldades, mais tarde, com o título do livro. Descobri que muita gente não leu, nem indicou a leitura, por considerar pornográfico ou coisa semelhante. Principalmente para escolas, o que é uma pena. Acontece.

MK - Seu percurso inclui poesia (Água de cacimba, 1998; Matalotagem e outros poemas da viagem, 2006) e contos (O chão que em mim se move, 2016). O que a poesia lhe ensinou que permanece na sua prosa?

CB - O que a vida me ensinou: não tenho nada a ver com isso, se vire com o que lhe coube. Meus primeiros versos foram voltados para a música. Fiz letras para canções, autorais e em parceria, que venceram festivais na minha cidade. Não tive nenhuma formação específica para a literatura. Fui e sou um leitor compulsivo. Segui os mestres Bandeira e Drummond, que me chegavam pelos livros de língua portuguesa do Ginásio. Copiava os poemas, tentava memorizá-los, essas coisas juvenis Depois, fiz um curso de roteiro para cinema e tevê com Doc Comparato, nos idos dos anos 1980, quando estudava Jornalismo. Estou a dizer que sou um homem comum, um que faz poesia popular, um contador de causo, um proseador da escola de Amado e Zé Mauro, se é que não os ofendo nem a seus leitores. Poderia acrescentar Adelaide Carraro, mas não quero espantar as crianças da sala. E o que me coube foi essa vivência de sertanejo-beiradeiro-citadino: a oitiva dos causos, os banhos de rio, as incursões no mato para estilingar e catar umbus, o espiar permanente do trânsito de animais pejados, a correnteza do rio arrastando troncos e moitas, os funerais cantados cruzando as ruas até o cemitério, a morte no meio da sala. E uma mãe que, quando falava, dizia coisas memoráveis, da linguagem cifrada em “cê-xis” e “rê-xis”, ao se referir à insônia como “passei a noite botando ordem no mundo” ou “passei a noite toda ajeitando a vida de Fulana”, e quando entrava em angústias, “meu coração parecia que ia sair dos alicerces”; esta última eu usei no romance “A dama do Velho Chico”. Entendo que um bom texto em prosa deve conter carga poética relevante. Guimarães Rosa disse, se não me falha a memória, que todo sertanejo é um ficcionista nato. E um poeta, pois seu falar é ritmado, repleto de metáforas e analogias, de dizeres espantosos ao senso comum. Pelo menos, o sertanejo pré-redes sociais. A mim me coube um pouco de tudo isso, maturado em muita leitura. Procuro ser inteiro em tudo que escrevo. Daí, a letra de música vira poema de livro, e vice-versa, um trecho de prosa vira poema, e vice-versa. Publiquei “Enchente”, em “A segunda sombra”, como miniconto: ‘O rio venceu o cais, invadiu a praça, subiu os degraus da igreja. Minha mãe, protegida e a seco, foi lá ver: - Que tragédia, meu Deus! Mas como é bonito!’. Muito tempo depois, publiquei esse miniconto numa revista virtual como poema e foi muito bem acolhido. Melhor assim, sem regras, no rompante, no estalar do chicote, na batida do remo.

MK - Críticos têm lido sua obra pelo prisma do imaginário material (Bachelard) aplicado à água. Esse enquadramento te representa? Onde ele ilumina — e onde empobrece — a leitura dos seus romances?

CB - Aos críticos o que lhes cabe. Sou grato aos que dedicaram atenção e tempo aos meus livros e sobre eles escreveram algo. Até aqui, tem sido predominante em meus livros as narrativas sertanejo--ribeirinhas do rio São Francisco. Tenho consciência de que não tratei do rio que lá está hoje, mas daquele ’“chão que em mim se move”. Isso foi o que me coube e procuro honrar esta herança. Sei também que não tenho controle sobre a leitura que fazem dos meus livros, essa é uma obviedade do ofício. Todo olhar revela algo único, por isso mesmo valoroso. Será um valor que surge da leitura, isso é que importa, a leitura. Meu trabalho já foi feito com o livro publicado. Como vê, sou um simples contador de causo, um proseador. Ano passado escrevi, e foi lançado agora em março, um livrinho de crônicas históricas sobre a minha cidade, quando ainda era o arraial de Bom Jardim, fruto do material de pesquisa que reuni ao longo de décadas para a escrita dos romances. Meti uns poemas pelo meio e um capítulo em prosa poética, onde a voz do texto convida o leitor para mirar o rio do alto do cais da cidade e diz, entre outras coisas: ‘’Ali e acolá, ubás, canoas diversas, ajoujos, barcas, balsas, chatas, rebocadores, vapores e lanchas-ônibus aportaram. Dessas embarcações desceram e subiram guerreiros, moradores, viajantes, trabalhadores, bandidos, artistas, autoridades, gente de gênio e engenho, pessoas de todos os gêneros e idades, em retorno ao lar, em visitação, a negócios, em pesquisas, em estudos, para viver, lutar, matar e morrer’. Tudo isso é sobre as águas.

MK - Você é graduado em Comunicação Social e atuou no jornalismo. Em que medida a observação jornalística — o olho para circunstâncias, vozes, cadências — molda suas personagens e cenários?

CB - Trabalhei com comunicação empresarial numa estatal federal. Não vivi a experiência reveladora de que falou a escritora mexicana Fernanda Melchor, autora do excelente “Temporada de furacões”, quando escreveu sua primeira reportagem e do retorno que teve do editor. Não fui às ruas reportar o drama humano e todas as mazelas que o cercam e compõem. Isso me chegou antes, bem antes. O trágico da vida batia em nossa porta, na minha infância distante, dele fazíamos parte. Cheguei ao Jornalismo depois de passar mais de quatro anos em Odontologia; já era um trabalhador, homem casado e com uma filha pra criar. Já havia feito movimento estudantil ativamente, fui delegado no Congresso de Reconstrução da UNE, em 1979, não era mais um jovem idealista e visionário, o que voltei a ser depois dos 60 anos. Na verdade, publiquei meu primeiro conto logo que entrei pra UFBA, em 1977, selecionado que foi no Concurso Permanente de Contos do Jornal da Bahia. Eu nem tinha feito, ainda, meus 19 anos. Ao lado do conto, a editoria responsável publicou um elogio respeitável e os conselhos de sempre. Aquilo me chegou na hora errada, vejo hoje. Eu acabara de romper uma barreira gigantesca, um sertanejo oriundo de escolas públicas, sem fazer cursinho preparatório, entrara em Odonto na UFBA, um dos cursos mais concorridos. A publicação do conto não impactou o tanto que deveria. Mas, já estava lá, em “Fugir”, boa parte da matriz da minha literatura vindoura: a luta do lavrador pela terra e o de-comer, a sanha de posse dos poderosos, a impotência dos desvalidos, a ausência de justiça efetiva, o gesto altivo, uma fuga possível ao horror de não-ser.

MK - Desde 2009 você mantém o blog “Minicontos”, onde publica leituras, crônicas e memórias. O exercício público e contínuo de escrever em blog alterou seu processo de edição e de escuta do leitor?

CB - Oh, Kátia, o “Minicontos” anda meio parado. Tem sido mais território de pesquisa que de atuação. Meus blogues (Miniconto e ContoSempre) foram espaço de exercício literários, de registros históricos, de comentários de livros lidos, de trabalhos em progresso. Tudo sustentado por um compromisso ético, do qual não abro mão, o respeito ao próximo. E a mim mesmo. Muito do que publiquei ali passou depois por reescrita, como se os blogues fossem cadernos de originais, filão de pedras brutas. Outros textos seguiram sem alterações. E outros, ainda, são circunstanciais. Os comentários, a voz do leitor, sugere sempre um apuro permanente na escrita do texto seguinte. Não por outra coisa que não seja: há leitor na linha, merece respeito, faça o seu melhor. Essas coisas. Talvez por isso não venha publicando mais no “Minicontos”. Há muita fúria no ar.

MK - Nos contos publicados no Rascunho (2008), já se nota um interesse pela periferia urbana, pelo “miúdo” da vida. Como esse veio tem se transformado à medida que Bahia, país e mundo mudam?

CB - Olha só! Você deve estar se referindo a uns minicontos que o Rascunho publicou antes dos contos “Vertigem,” e “O encontro”. Nem me lembrava mais desses aí... foram três ou quatro, estou surpreso... acho que não tenho mais esse registro impresso. Fato é que meu interesse pelo miúdo da vida veio, na verdade, com a leitura da obra de Guimarães Rosa. Ali eu descobri que essas pequenas coisas do nosso mundinho em volta podem adquirir valor literário inestimável. Rosa me disse, da forma mais poderosa possível, que as miudezas é que levam às grandes emoções e aventuras. As palavras e frases do cotidiano é que expõem verdades, não as escondem em firulas. Deixei de me preocupar com o escorreito e cuidei mais do escorrer melodioso da língua do povo. E o povo está em toda parte. As miudezas, também. Não sei se consegui sucesso, mas tentei, e ainda tento. Mas tudo depende da roupagem que a história exige. Hoje não vou mais ao mato armar “fôjo” pra pegar preá, nem ando mais de ônibus pra Liberdade. Minha diarista é a mesma, dou graças por isso, não canta mais “eguinha pocotó”, pra compensar não entoa louvores, o que muito me para; meus vizinhos se multiplicaram e minha solidão agora pode ser eletiva. Sou mais rico de memórias e, pasmem, de tempo, o que é um paradoxo. As mudanças por que tem passado o mundo giram em torno de meios, de instrumentos. Seguimos demasiadamente humanos. Em alguns casos, bestialmente humanos. O material da literatura move-se entre os sete pecados capitais e os dez mandamentos. Assim será até nossa extinção, creio. Nessa era digital, tenho tido pesadelos com as totalidades, com os “tudos” ao nosso alcance em frações de segundos. Mas o que tem forçado caminho, em mim, para a luz das páginas, segue sendo incógnita numa multidão inflada por hordas de desconhecidas grifes e apagões desconcertantes. Mudo eu, também.

MK - Ao longo da sua trajetória, você publicou em editoras e coleções ligadas à cena baiana contemporânea. Como enxerga hoje o ecossistema literário da Bahia — seus espaços, curadorias, festivais — e o que ainda falta para ampliar circulação e crítica?

CB - Falta, obviamente, um sistema de distribuição efetivo do produto livro para outros mercados e um olhar menos preconceituoso para o trabalho do/a autor/a da terra. Portas importantes ainda se mantêm fechadas. De resto, noto uma agitação da cena literária bem interessante. Não tenho como me estender nessa questão, pois me faltam dados concretos para melhor avaliar o quadro. Estou meio à margem desse processo, tenho saído pouco e o sistema é cruel, como diria Alceu Valença.