Creio que há uma memória coletiva em cada uma de nós, do que significa ser mulher. A memória que recua ao princípio dos tempos, universal ao sentimento de se sentir mulher. É um momento muito específico em que ganhas consciência em que vives numa dualidade, entre conseguir atingir a idealização do que é mulher, perante olhos alheios; ou conseguir viver plenamente como uma pessoa que existe, que fala, que é.
Sou mulher, mas sinto uma flagelação na minha identidade enquanto mulher. Uma mulher a sério cumpre os requisitos de pureza, de subserviência, de abandono da sua sexualidade, de completa entrega ao seu objetivo fulcral: separar-se da existência enquanto ser humano para se tornar num corpo. Algo que não existe, apenas está lá.
Sempre que falo, sempre que tenho uma opinião, sempre que sou uma pessoa sexual, sempre que sou um corpo com consciência da sua própria existência individual, ensinaram-me que me afasto de mais uma parcela da minha identidade enquanto mulher.
A violência contra as mulheres baseia-se na dualidade entre a mulher boa e a mulher má. A pureza e a sensualidade. A que se comporta de forma adequada, a que fala. A que encontra realização na subjugação, a que é livre. A que não existe, a que existe. A morta e a viva.
Hoje relembro, no dia da Mulher, que a violência contra as mulheres baseia-se no conceito que ainda temos de ser anuladas. A normalização da mulher violentada porque se afastou do seu propósito de ser mulher. Somos violentadas porque merecemos, e merecemos porque somos uma existência, somos alguém. Não é suposto conseguirmos sentirmo-nos mulheres e sermos alguém. Estamos destinadas a ser uma blasfémia. Está na altura de assumirmos a nossa existência ultrajante e libertarmo-nos da expectativa da mulher que é feliz porque é uma mulher boa. Porque essa mulher não existe.
Recomendações da Autora: livro Novas Cartas Portuguesas, por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa; livro Woman Hating, por Andrea Dworkin.
Artigo originalmente escrito a propósito da celebração do Dia da Eliminação da Violência contra a Mulher, pelo núcleo feminista FemFDUP. Publicado a 25/11/2021
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Isabel Lobo