
Quando digo que os livros ditos de Verão não são muito a minha onda o que quero dizer é que decidi levar os contos da Dorothy para a praia - ainda espero com ansiedade pelo Outono, mas às vezes sucumbimos à pressão (há pessoas que já estão de pijama comprido em thumbnails do Youtube, onde vive este pessoal? Círculo Polar Árctico?). Tinha pensando levar The Member of The Wedding da Carson McCullers que é um livro da qual gosto muito e que tenho para reler, e que por acaso até é passado num Verão, mas como continuo a ler o conjunto de ensaios de Alberto Manguel não queria estar a começar um romance...
E na verdade analisando o perímetro à volta via-se um pouco de tudo: desde os omnipresentes livros de TikTok, não há paz, passando por não-ficção, policiais e até autores de renome como Milan Kundera.
E celebremos quem leva o seu e-reader para a praia e vi uns poucos apesar da supremacia do papel, só de pensar na Clarinha a cair desamparada em direcção à areia senti um pequeno calafrio. Mas isto devem de ser pessoas de outra cepa que não deixam cair um pacote inteiro de snacks no areal e um telemóvel minutos depois...Não sei estar com elegância como também se prova pelo facto de ter ido à água vestida, em trajes de banho não me apanham, só para passear serenamente como costumo ver fazer, e ter acabado a chapinhar como uma criança encharcando-me toda. Mesmo não sendo muito enérgica estar sentada\deitada ignorando o mar o dia inteiro não é para mim.
Ontem não reparei assim em nenhum título em específico, mas algumas pessoas querendo contradizer a ideia de que a humanidade perdeu a capacidade de se focar, mantiveram-se longamente agarradas às suas leituras ou cruzadex. O livro, que regressou à segurança da mesa-de-cabeceira talvez um pouco deformado, tem dezoito contos curtos e já li oito. Estou a gostar bastante e dos ensaios também. Abandonado em cima da mesa continua o Mulheres Invisíveis que fui buscar à estante e ainda nem cheguei a começar - não teria a capacidade cerebral para ler não-ficção na praia.
Considerando que os livros que tenho na Clarinha incluem A Winter Book da Tove Jansson, um que é uma espécie de terror envolvendo aranhas e um cujo título literal é porco braseado, há coisas mais inusitadas para se ler enquanto se relaxa no exterior do que contos sobre as relações entre géneros - e uma muito certeira descrição do privilégio masculino.
E nestes últimos dias tenho feito algumas descobertas: que panquecas com manteiga por cima afinal é bom, que as estrelas-do-mar são um pouco assustadoras vistas de perto, é uma estranha criatura que tem vivido nesta terra por quase 500 milhões de anos e que devia permanecer na água em sossego, por outro lado as medusas são realmente uma invenção lovecraftiana.