Alexandre Arbex

Quando o diretor mandou cortar a cena, eu mal começara a sentir esfregação áspera do pau do Big Fire Bird dentro da xereca, e já ele, tremendo feito um cachorro atropelado, salpicava minha barriga com uma porra aguada, igual a suco graviola. Eu achava triste vê-lo emurchecer, todo tolhido, de olhos fechados, segurando o pau inútil como uma criança. Espinafre, Big, batido com cenoura, para encorpar essa sopa, eu dizia. A porra empelotara antes de escorrer, e eu despachei, com petelecos de unha, os últimos grãozinhos gelatinosos do emaranhado de pentelhos. Intervalo, disse o diretor. Eu estava bem, perfeitamente ilesa, quase imaculada. Antes de Big Fire Bird, fora a vez de Monsieur Baguette, antes de Monsieur Baguette, Geraldo Tacape, antes de Geraldo Tacape, Aríete Jones. Os primeiros, extenuados, assistiam, na saleta ao lado do estúdio, a um documentário sobre a vida submarina. Fui encontrá-los depois do banho, já vestida no meu roupão atoalhado, sem cinto, com as mãos no bolso do cansaço. O azul repousante das imagens tingia as paredes e inundava o ar que cheirava à colônia de alfazema e às mexericas que eles descascavam metendo o dedo no orifício dos talos. Pareciam zumbis, zumbis azuis (se é que existem). Cessado o frenesi nervoso e maçante das sessões matinais de filmagem, eu me sentia outra vez dominada pela sensação de vazio. Tranquilos, preguiçosos, os rapazes pestanejavam diante da televisão. Eu invejava a pobreza daquela saciedade. Poderia pedir que um deles ou dois pegassem uma mexerica e a enfiassem com o braço até o cotovelo pela minha boceta. Talvez aí eu sentisse, senão prazer, ao menos alguma consideração. Mas não havia clima. Além disso, os rapazes são egoístas, não se dariam ao trabalho desses nem por solidariedade de classe. Eu via a enguia que cruzava a tela fluida e a imaginava se enfurnando, comprida e mole, com seus bigodes, suas escamas eriçadas, até fecundar o meu fundo com sua língua gelada. Falando assim, parece loucura, mas na hora, só de imaginar a sensação, tive um êxtase poético. Almocei sozinha no estúdio, como de hábito. Mesmo depois de comer, eu sentia o corpo oco, faminto. A rotina da profissão me fizera perder a sensibilidade das mucosas, dos músculos, e mesmo a pele escalavrada ao redor da vagina, com seus cabelinhos encaracolados de anjo, já não ardia, não se crispava com a fricção desastrada das triplas penetrações. Os homens manejam muito mal o pau. São de uma imperícia cavalar. Há exceções, claro, entre os cavalos. E talvez Jorge El Abuelito, para não ser injusta. Tirando pela média da minha experiência, que não é baixa, acho que os homens têm genitálias muito pequenas, proporcionalmente falando. O órgão sexual dos porcos machos mede quarenta e cinco centímetros, e eles, de altura, dificilmente chegam a um metro e meio. Quando se está a par desse tipo de informação, a coisa toda perde um pouco a graça. Talvez, mais jovem, com os sangramentos, o inchaço das ulcerações, fosse o bastante para mim. Tinha aquela sensação de preenchimento, de vocação consumada, que as mulheres procuram no começo. Uma utilidade que perfeccionava uma anatomia incompleta, mutilada. Jorge El Abuelito me ensinou essa palavra, perfeccionava. Era um homem muito culto. Enquanto os outros, não por maldade, mas obedientes à ética do ofício, me enchiam os ouvidos de palavrões, de xingamentos, puta, cadela, piranha, El Abuelito solfejava melodias de bolero e sussurrava Neruda com o hálito de carménère na minha nuca. Quem o via nos filmes, julgava-o apenas mais um velho sórdido, reabilitado pela ereção química. Uma inverdade: era um cavalheiro. Por algum tempo, antes de trabalhar como atriz, o sexo, o sexo convencional, bíblico, me proporcionava essa satisfação correta, justa, que resulta de um encaixe natural. Depois, me foi crescendo a impressão de que esperavam mais de mim ou de que eu precisava de mais. Não sei se eu sofria de uma avidez insanável ou apenas do sintoma de uma falta, como disse o doutor. Eu só queria gozar. Novata na carreira, eu aceitava participar de todo tipo de cena, e este desprendimento, muito apreciado na indústria, logo me alçou ao protagonismo das produções de vanguarda. Uma concorrência tácita, profissional, estabeleceu-se entre mim e as outras atrizes, mas nenhuma delas aguentava o que eu aguentava, nenhuma delas precisava tanto quanto eu. Eu me submetia a contorcionismos circenses, a bofetadas shakespearianas, a escarradas, rastejava sobre azulejos mijados, puxada por uma coleira ou rolada a botinadas – o clássico esquete da caloura bêbada parada numa blitz –, me deixava foder por quatro, sete, nove atores ao mesmo tempo, esgarçava com as próprias mãos a boca da vagina, dilatava o cu com legumes, cabos de ferramenta, empunhaduras de raquete, bolas de bilhar, e pedia que metessem todos de uma vez, espremendo, atulhando dentro de mim as glandes inchadas até o atrito se tornar insuportável para eles. Eu engolia toda a porra que podia: cabisbaixos, com as pálpebras fechadas pela imaginação, os rapazes me suspendiam pelo cabelo, pelo pescoço, pela mandíbula, e despejavam, com gemidos de cortar o coração, o esperma no meu rosto. Eu sentia o gosto das suas tristezas, dos seus medos, e dizia a eles, Aríete Jones, você está triste, Cláudio Colosso, não tenha medo. A ironia disto é que eles sondavam com suas varas as profundezas assombradas da minha intimidade, mas eram incapazes de perceber se eu tinha febre ou fome, ao passo que eu captava numa gota de sêmen todos os seus dilemas emocionais. Seus paus se encolhiam como invertebrados logo depois de vomitarem sua alminha derretida, e os rapazes se tornavam subitamente melancólicos e propensos a confissões. Às vezes, eu absorvia suas palavras até ensurdecer meus próprios pensamentos, mas, antes que eu terminasse de falar, eles se levantavam e saíam, mais leves, como se tivessem acabado de lançar um fardo cheio de comida podre num triturador de lixo, depois de terem escoado o chorume espesso e branco de suas vidas infelizes pelos ralos do meu corpo. A falta que faz uma mãe a esses moços, eu pensava. Em casa, eu continuava sozinha. Colocava moedas, benjamins, amoras (a depender da época), chaves, borrachas, prendedores de varal, colherinhas, até a sensação de vazio passar. Mas não passava. A maioria das coisas caía quando eu me levantava, outras eram expelidas em algum momento por uma contração espontânea. Uma ou outra sempre ficava. A angústia me inspirava de vez em quando reflexões incoerentes. Eu pensava que, de alguma forma, tudo que existia no meu corpo tinha sido sugado por aspiração logo após o parto ou que eu nascera com alguma insuficiência irreparável, com uma bolha de vácuo crescendo dentro de mim. Num dia desesperado, achei que esse vazio era o nada e que esse nada era eu. Corri, descontrolada, ao apartamento do Geraldo Tacape, que ainda era policial, e lhe implorei para enfiar o cano de revólver na minha vagina. Auxiliadora, ele disse, acalme-se e me explique isto direito. Quando comecei a falar, percebi que não fazia sentido. Quer dizer, ele não poderia entender. Aceitei uma cerveja, Tacape descongelou uns pastéis e conversamos sobre política, viagens, sobremesas, evitando assuntos de trabalho. Ele lamentou não ter acompanhado mais de perto a criação do filho que, agora adolescente, desafiava sua autoridade, e eu lhe respondi que não sabia onde esse mundo ia parar. Assim que saí de lá, voltei a me sentir vazia, como se acabasse de abortar uma gravidez psicológica. Olhei as pessoas no ponto de ônibus, as placas de trânsito, a gangorra da praça, as árvores, os quiosques, as vitrines povoadas de manequins, o guindaste na obra, as sacadas dos prédios abarrotadas de plantas, as janelas sangradas pela luz do poente, e desejei sentar arregaçada sobre todas aquelas coisas, enfiá-las até o fundo e cobri-las com a abóbada escura, molhada, da minha boceta infinita. Seria como botar um ovo do tamanho do mundo, de fora para dentro. Não sei por que me lembrei disso agora. Naquela época eu era jovem, mas a minha vida já era a minha vida. Pessoal, disse o diretor, vamos retomar? Acho que foi isso, o cheiro do café me deixa melancólica. O figurino de época me espera no camarim. O filme da tarde vai se chamar “O poeta pornosiano e seu precioso dodecassílabo”. A produtora vem apostando há algum tempo num público mais refinado, que tem o sentido do humor sutil e intelectual. Reconheci a voz do Márcio Mastro, com certeza chegaram outros atores. O diretor reuniu mais cedo o elenco e repassou o script. Eu ia começar chupando três deles, depois os três iam meter os paus juntos na minha boca e fodê-la como se minha cabeça fosse um melão descascado, os outros cinco iam se revezar, a dois por três, entre meu cu e minha boceta, com penetrações simultâneas e estocadas rápidas, se achassem uma posição confortável. O diretor, rindo, me perguntou se eu podia aguentar mais essa, eu respondi que sim, que eu aguentaria todos os homens do mundo ao mesmo tempo, se fosse preciso.

Alexandre Arbex nasceu em 1980, em Resende, no Rio de Janeiro, mas cresceu na capital, onde morou até 2009. Desde então, vive em Brasília. Publicou o livro infantil “O livro” (Casa da Palavra, 2001), o livro de contos “Da utilidade das coisas” (7letras, 2016), esse finalista no gênero no Prêmio Jabuti, e o livro de contos  “Pessoas desaparecidas, lugares desabitados” (7Letras) . Além disso,  foi finalista do Prêmio Off Flip duas vezes e levou o terceiro lugar no Prêmio Rubem Braga de Crônicas, do Sesc, em 2015. Possui contos publicados na Revista Gueto e no projeto Máquina de Contos.