Madame K - Você nasceu em Cruz das Almas e hoje atua como poeta, pesquisador e professor em Salvador/Bahia. Como esse percurso geográfico e identitário, do Recôncavo ao universo acadêmico, moldou a sua voz poética?

Wesley Correia - Nasci no Recôncavo Baiano, de onde extraio a matéria prima da minha locução. Fui estudar em Feira de Santana e vim para Salvador a fim de trabalhar e cursar doutorado na UFBA. Através da produção científica e poética, estive em muitos lugares, dentro e fora do país. A literatura me impôs essa condição que é quase natural à vida moderna: deslocamento, trânsito, exílio e diáspora, significativas imersões íntimas a cada viagem. Sou de Cruz das Almas, sou do mundo, e não pertenço a lugar algum… Se na minha origem de menino pobre do interior está o germe que fez brotar em mim a poesia, é na minha vivência nômade que reside o mais fértil da voz coletiva e mística que trago guardada no meu mais profundo.

MK - Sua formação em Letras, depois mestrado em Diversidade Cultural e doutorado em Estudos Étnicos e Africanos sugere uma interseção entre poesia e teoria crítica. Em que medida você pensa a poesia como campo de pesquisa — e a pesquisa como prática poética?

WC - São frentes que se retroalimentam. Embora haja um imaginário que pareça torná-las excludentes entre si, o fato é que são ambas, a arte e a ciência, produtos de uma linguagem, e isso mais as aproxima que afasta. Particularmente, sinto que a pesquisa cumpre um papel mais didático em minha vida, é como se a exegese quisesse aterrar o poeta Wesley, desvendando-lhe certos enigmas, clarificando-lhe os mistérios, apascentando-o enfim, na medida em que confere maior materialidade ao seu mundo insólito. Por outro lado, mesmo quando tento demonstrar algo através de meus estudos, o tom é, no mais das vezes, literário, com certa musicalidade.

MK - O livro de estreia, Pausa para um beijo e outros poemas (2006), inaugura sua carreira publicada. Como você revisita hoje esse livro, o que mudou? Que marca daquele início permanece?

WC - Em “Pausa para um beijo” está a ousadia juvenil, sem que haja muita interferência do preciosismo da linguagem ou da expectativa com os resultados. Tudo ali é possível, tudo é legítimo, o querer fazer e o fazer poético se fundem frente ao fato de que tudo está em processo. Aos 45 anos, meu ímpeto de poeta supostamente mais experiente é o de querer condenar esse primeiro livro-rascunho, eis que ele não se deixa condenar, tamanha é a sua força libertária.

MK - Em Deus é Negro (2013), a questão racial aparece de modo explícito e simbólico. Poderia comentar o que significou para você esse título e como ele se desdobra nos poemas do livro?

WC - Em 2005, me iniciei num candomblé de Ketu, o Ilê Axé Oba Nijo Omin, pelas mãos do meu querido Babalorixá Arlindo de Xangô, de saudosa memória. Sou de Obaluaye com Yemanja e Ogun, tenho esse Ori cheio de muita energia criativa. Quando eu me preparava para o recolhimento, Babá Arlindo, sabendo da minha relação com o texto, recomendou que eu escrevesse sobre o universo do Terreiro e sobre os sentimentos que as relações interpessoais, culturais e religiosas evocavam em mim. Definitivamente, aquela atividade constituía o meu “diário de campo” e não um livro para ser lançado (acho que ele não tem jeito de livro), mas sinto que ele se revestiu de um autonomia tal que não apenas foi publicado como também passou a circular em muitos espaços, foi referência bibliográfica em concursos e provas de vestibular, atraiu atenção do público e da crítica, seus poemas foram traduzidos para o inglês e para o romeno. Por seu movimento, digo sempre que esse é um livro de Exu, um livrinho arteiro, vívido e gracioso tal qual a energia que o move. O título pode guardar uma ambivalência: 1. traz uma provocação quanto à iconografia que o ocidente cristão produziu ao imaginar um Deus branco e propagar essa ideia para o mundo, e 2. alude à presença de deusas e deuses negros, que, venerados pelo Povo de Terreiro, mantém viva, nos trópicos, a fé ancestral de matriz africana, que, creio eu, foi a grande responsável por termos sobrevivido à escravização.

MK - Íntimo Vesúvio (2017) traz uma outra tonalidade. Qual era o ponto de tensão ou a “erupção” que você quis expressar com esse livro?

WC - Desde que vi, pela primeira vez, os corpos petrificados pela ação do Vesúvio em atividade, jamais pude esquecer a sensação que aquela imagem me trouxe. Me perguntei como poderiam carne, ossos, sangue e nervos se transformar em pedra? Como foi possível que a emoção naqueles corpos estivesse para sempre empalhada? De alguma forma, havia um Vesúvio em mim, que também destruía paragens íntimas e transformava em rocha minhas vísceras e coração. Toda essa densidade me pareceu tecer a metáfora própria da vida, como se existir fosse qual um vulcão que arrefece, adormece e volta a eclodir, tempos depois, devastador, sujeitando todas as coisas à renovação. Seriam esses os ciclos de nossa existência como se o sintoma de estarmos vivos passasse ao largo de uma estabilidade? Algumas provocações e a tentativa de elucidá-las por via do exercício poético constituem o Vesúvio íntimo em que tenho mergulhado desde sempre. Por fim, considero-o como um livro em que mostro minha inclinação filosófica para a observação discursiva.

MK - A coletânea Laboratório de incertezas (2020) reúne poemas de mais de uma década, além de inéditos. Você a descreveu como um “laboratório”. O que significa essa metáfora?

WC - A editora Malê me propôs selecionar poemas dos meus livros anteriores, que se encontravam esgotados, além de textos presentes em revistas e coletâneas, e publica-los como uma antologia. Foi o que fiz, mas como tinha alguns poemas inéditos quis acrescenta-los à obra, a que chamei “laboratório de incertezas”. Este é um livro pandêmico… Um dia após o seu lançamento as medidas restritivas que tentavam conter a propagação da COVID-19 aconselhavam o isolamento. Talvez o livro tenha captado o espírito desse tempo: confiávamos na ciência, defendíamos a pesquisa, “o laboratório”, mas tudo eram “incertezas”, tudo era negacionismo e horror demais.

MK - Seu mais recente livro, Secreta Ilusão (2024), dialoga com a era digital — uso de @, hashtags, linguagem das redes. Como a tecnologia e a contemporaneidade entram na sua poesia? Qual o risco e a potência dessa incorporação?

WC - Acho que as pessoas não entenderam a presença dessa linguagem tecnológica no papel: qual o sentido de @ e # em mídia impressa? No fundo, penso que eu quis provocar a ideia ambígua de “rede ou de engajamento” que esses símbolos sugerem na era do algoritmo e, ao mesmo tempo, quis mostrar que a poesia é democrática e sempre comportará uma linguagem diversa e contemporânea. Diferente do que muitos pensam, a poesia, e não a internet, é a grande revolução tecnológica de todos os tempos! Embora seja o livro que mais gosto, ele não tocou o público como eu esperava que pudesse acontecer, talvez ele ainda leve um tempo para ser melhor compreendido. Talvez sim, talvez não. Quem sabe?!

Diferente do que muitos pensam, a poesia, e não a internet, é a grande revolução tecnológica de todos os tempos!

MK - Em vários momentos você aborda o “ofício do poeta”, o “fazer poético” como tema. Sendo um poeta negro, no Brasil de agora, como você se posiciona em relação à tradição literária, à visibilidade e às tensões do mercado editorial?

WC - A minha experiência de homem negro atravessa toda a minha escrita. Cheguei à essa conclusão depois de alimentar um certo receio de que, ligado a questões políticas e raciais, eu poderia não ter liberdade para escrever sobre o que eu quisesse. Por muito tempo, temi ser um poeta monotemático, que só tratasse do racismo ou de pautas sociais, mas essa perspectiva é/era inevitável. Mesmo quando trato dos temas existenciais, é a minha subjetividade negra que dá estofo ao discurso, afinal, sou um homem preto a escrever e que, ao fazê-lo, deseja compreender o seu ofício: o que é ser poeta? Para que serve escrever as coisas que escrevo? Como percebo um sintoma muito estranho no tempo presente (guerra aos espaços naturais, iminência de conflitos nucleares, crescimento do conservadorismo, intolerância e xenofobia), sinto que a minha escrita se dispõe a tratar de tudo isso, a observar e a refletir sobre o mundo à minha volta numa tentativa de traduzi-lo de alguma forma.

MK - Sua produção acadêmica e literária caminham lado a lado. Qual o papel da pesquisa sobre literaturas e identidades africanas / negras no seu modo de escrever poesia? Existe um diálogo explícito ou submerso entre eles?

WC - Minha produção acadêmica tem sido menos frequente: normalmente escrevo, mais a pedido, alguns ensaios, resenhas e artigos, e organizei dois livros científicos. Mas é literária a força maior de minha escrita. O estudo das produções literárias negras evidenciam o fato de que pretos e pretas podemos contar as nossas histórias, que gostamos e sabemos como fazer isso. Por muito tempo, pesou sobre nós um imaginário de que não éramos capazes intelectualmente; ora, de Machado de Assis à Conceição Evaristo, de Lima Barreto à Carolina Maria de Jesus, passando por tantas e tantos outros de genial pensamento, a história evidencia a potência de nossa palavra.

Por muito tempo, temi ser um poeta monotemático, que só tratasse do racismo ou de pautas sociais, mas essa perspectiva é/era inevitável. Mesmo quando trato dos temas existenciais, é a minha subjetividade negra que dá estofo ao discurso, afinal, sou um homem preto a escrever e que, ao fazê-lo, deseja compreender o seu ofício

MK - Falando de linguagem e forma: você utiliza metáforas fortes, ritmo, experimentação — cada livro parece trazer um movimento novo. Como você decide formalmente o “modo de escrita” de cada livro? Existe um critério consciente, ou é mais intuitivo?

WC - Não decido nada, mas confesso que gosto muito de “brincar” com a estrutura do texto. Vou pensando em imagens possíveis, rascunho um verso aqui, maturo uma estrofe ali, vou aguardando sem ansiedade o tempo da poesia e a forma com que ela quer mostrar, a sua configuração no papel deriva de um jogo nebuloso. Estou em paz nesse sentido. Sou o canal por onde passa um fluxo poderoso feito de muitas vozes, estou cada vez mais consciente da limitação de minha ingerência sobre o fazer poético.

(…) qualquer verso, qualquer observação feita sobre o tempo, sobre os Orixás ou qualquer solução rítmica que o poema encontre terá sempre a palavra como tônica definitiva, a palavra e a música são o meu tema radical.

MK - O leitor de hoje encontra em sua poesia temas como amor, perda, finitude, movimento social, identidade. Qual dos temas você sente que ainda está por explorar — ou explorar mais profundamente?

WC - Temas são tantos quanto possíveis: basta que se agitem em mim. Talvez eu me arrisque a dizer que a palavra é o macrotema de meus poemas; qualquer verso, qualquer observação feita sobre o tempo, sobre os Orixás ou qualquer solução rítmica que o poema encontre terá sempre a palavra como tônica definitiva, a palavra e a música são o meu tema radical.

MK - Olhando para frente, quais são os próximos “experimentações” ou desafios que te atraem — seja como poeta, como pesquisador ou como docente? Que livro ainda não escrito você gostaria de lançar?

WC - Tenho escrito alguns contos para coletâneas, e tenho um livro de contos já pronto, mas não sei se quero publicá-lo. Trata-se de um livro cheio de afetos, mas atravessado por muita dor, e, na boa, não sei se é essa a mensagem que quero deixar nesse momento. Por outro lado, comecei a escrever um romance, parei no quinto capítulo… É o tipo de produção que exige um esforço hercúleo, implica em desgaste de energia, muita disciplina, capacidade inventiva e domínio do gênero… Acho que não tenho fôlego pra isso (risos). Os poemas, bem, estes já começam a surgir aos poucos, vão-se insurgindo lentamente e quando menos espero já somam um livro… Que venho o novo.

Leia um poema inédito de Wesley Correia

tanto transborda

esse copo de mágoa

sem nunca esvaziar-se

de seu pra sempre

adiado fim,

de seu desamém,

no corpo estético

o homem que serei

perece estático,

mas o homem que sou

e a mulher que sou

existem é por fora

do tempo

porque para o homem que sou

e para a mulher que sou,

tudo é ser

o que se é.