O problema é que fevereiro, que costumava ser meu mês preferido, agora também me machuca. Lembra despedida. Ela tinha que ter ido embora justamente em fevereiro?
Maria Paula Curto*
Como já disse por aqui, sofro de dezembrite e janeirite, esses meses definitivamente me fazem mal. Vocês podem me achar louca, afinal logo dezembro e janeiro, meses de férias, festas, verão? Pois é. Justamente por isso. É muito calor, é muito sorriso forçado e muita memória empurrada a fórceps para dentro da gaveta ou da barriga. Aperta as entranhas, dá constipação, estoura veias, arde, às vezes coça. Coceira forte, daquela que perturba as ideias e que você não consegue esquecer. Tem gente que sabe lidar com isso. Eu ainda não consegui aprender. Sigo torcendo para fevereiro chegar.
O problema é que fevereiro, que costumava ser meu mês preferido, agora também me machuca. Lembra despedida. Ela tinha que ter ido embora justamente em fevereiro? Não poderia ter ficado um pouquinho mais e deixar o adeus para março? Faltava só mais um dia. Um dia apenas e o mês virava. Fevereiro é curtinho. Mas não. Parece que ela escolheu de propósito. Não para me provocar. Absolutamente. Mas para que eu estivesse mais feliz, mais inteira, mais sorridente. Ela não queria tristeza ao deixar o palco. Porque ela sabia que o seu espetáculo havia sido bonito demais para terminar em um mês qualquer.

Dentre tudo de bom que ela me ensinou, preciso destacar duas coisas que, para mim, são fundamentais e que se eu pudesse deixar de legado para as minhas filhas, eu já teria cumprido uma bela missão. Foto: Acervo Pessoal.
Não estou triste. Não, não é esse o sentimento que me toma em fevereiro. Estou saudosa. Tenho muita saudade dela. Tanta, que hoje, passados três anos, ainda custo a acreditar que ela não está mais por aqui. Que eu não vou mais ouvir aquela voz me acalmando, ou me dizendo vai, você consegue. Ou até mesmo me dando bronca, puxando minhas orelhas, me chamando de preguiçosa, desleixada, louca ou acelerada demais. Até das broncas – ou principalmente delas – eu sinto falta. Muita falta.
E sabe o mais impressionante de tudo? Que toda vez que algo de bom ou de importante me acontece, a primeira pessoa para quem eu penso em ligar para contar é ela. Sempre. É como se o meu cérebro dissesse: liga logo, vai, ela vai ficar tão feliz em saber. Só que ela não vai mais saber. Ou talvez ela já saiba, de tudo, e eu nem preciso mais contar.
Outro sentimento que tenho nesse meu mês preferido do calendário é de gratidão. Quem sou eu para reclamar dessa perda? Logo eu que a tive durante 87 anos. 87! Tudo bem que, no finzinho, ela já não lembrava de muita coisa, exigia um cuidado maior, uma atenção redobrada, mas, de novo, o que é esse “esforço” perto de tudo que ela me deu? Ela me deu ética, caráter, valores, além da própria vida. Como escrito na minha dissertação de mestrado: agradeço aos meus pais por tudo de bom que exista em mim. O que tenho de errado, eu devo a mim mesma.
Dentre tudo de bom que ela me ensinou, preciso destacar duas coisas que, para mim, são fundamentais e que se eu pudesse deixar de legado para as minhas filhas, eu já teria cumprido uma bela missão. A primeira: saber dizer não. Principalmente um não para um filho, esse ser que a gente ama tanto e para quem a gente quer dar o mundo. Minha mãe sempre dizia: dizer sim, para tudo, é muito mais fácil, tenha certeza disso, mas não faz ninguém amadurecer. É o não que forma a casca e faz crescer o miolo. E se eu consegui encarar essa cidade, esse país – que, definitivamente, não é para amadores – é porque eu soube ouvir e entender cada não que ela me disse.
A segunda coisa mais importante, e que eu chamo de escudo para todas as armadilhas que existem a cada passo da nossa trajetória, é autoestima. Gostar de si, sempre, e apesar de tudo. Ter autoestima não é apenas se acreditar capaz, é também gostar da gente do jeitinho que se é. Com rugas, pelancas, chulé, cicatrizes, caspa, celulite, sem saber a diferença entre um Monet e um Manet, cansado, estressado, intolerante, brigão, feio, humano, demasiadamente humano. A gente não pode se amar porque somos maravilhosos, belos, bem-sucedidos, mas apesar de sermos tortos, feiosos e com uma agenda repletas de fracassos bem-intencionados. A gente tem que se amar não por sermos perfeitos, mas justamente pela beleza das nossas vulnerabilidades. E seguir em frente, lembrando que o movimento só é possível pela falta, pela imperfeição.
Ah, dona Lucinda, muito, muito obrigada por ter sido minha mãe.

*Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP