Viagem à Ilíria, 264 páginas, é da Três Maçãs
Em 2022, o presidente do Brasil — Jair Bolsonaro, mas isso não é dito — decide fazer uma visita diplomática à Rússia — chamada de Ilíria — para tratar do assunto do comércio de fertilizantes, colocado em situação difícil pela iminente invasão da Ucrânia — chamada de Pequena Ilíria.
Bruna Schmitz parte dessa premissa para construir uma história que joga longe o realismo e mergulha no fantástico, narrando com bom humor a viagem do Presidente e de seu Ministro dos Assuntos Sérios.
A linguagem utilizada é extremamente irreverente, conversando com o leitor e beirando o nonsense.
A pasta dava má sorte, era o que se pensava. Primeiro, havia a dificuldade em definir quais assuntos erma realmente sérios e, de todos os sérios, destacar ainda os seríssimos, aos quais deveria ser dispensada a máxima atenção. Logo na arrancada, quando o Ministro era então outro — um prodigioso rapazote de vinte e um anos ainda não saído da universidade, mas que já sabia ditar, assim se dizia, a Constituição de trás para a frente, inclusive em latim, e também era, por feliz coincidência, sobrinho do Senhor Presidente —, decidiu-se que esse assunto seria a Liberdade. E passaram todos os assessores, imediatamente, a compor versos sobre a Liberdade. “A Liberdade quando plena;Faz da alma serena””, “A Liberdade quando aperta/A nossa fúria desperta”, “A Liberdade esse anelo/Brilha qual um Sol amarelo.” Todos tornaram-se libertário absolutos, e nada era mais importante que o exercício de sua liberdade; e é daí que alguns passaram, inclusive, a vestir as calças no lugar das camisas, enfiando os braços nos vãos das pernas, e a amarrar as camisas na cabeça, à maneira dos turbantes (…) Mas tudo isso era em nome e expressão da Liberdade, esse Sol amarelo.
Acontece que o avião que leva a comitiva cai nas estepes da Ilíria e só é salva por intervenção sobrenatural. Não digo divina, pois quem vem ao auxílio da turma não é Deus e sim o Diabo.
O Presidente, aliás, não sabia que o ruivo era o Diabo. O leitor, se não o sabia, não prestou muita atenção. Mas o Ministro prestou atenção.
É o Diabo quem pousa o avião em segurança e leva os brasileiros e uma igreja onde comem um banquete e conversam todo tipo de loucuras. De lá, o Diabo deixa os assessores para trás e leva somente o Presidente e o Ministro à fortaleza do Ditador da Ilíria, com o qual eles têm uma audiência marcada.
Entretanto, o ditador está pouco interessado em fertilizantes e prefere fazer longos discursos desconexos sobre o mundo e a humanidade.
A partir daí, a história vai fazendo cada vez menos sentido. A Ilíria ataca a Pequena Ilíria, o Diabo conduz o Presidente e o Ministro pela zona de guerra, eles se juntam e se separam, vemos mortes, vemos igrejas, vemos coisas que não existem.
A todo momento temos a impressão de estar dentro de um sonho, no qual ouvimos as vozes ora do Presidente, ora do Ministro, ora do Diabo e ora do narrador, falando sobre temas inusitados. O texto corre de forma torrencial, com intenso uso de analogias, advérbios e adjetivos.
Como que respondendo, o mar imediatamente arrebita, ergue sua imensa cauda rutilante, e eis que lá está ela novamente: a montanha fosfórica sobe até o céu em elipses e lufadas, sobe como um balão soprado por um gigante, e é agora três vezes maior do que era antes. O cavaleiro, ao vê-la, brande a espada como se pertencesse àquele povo que atirava flechas contra a tempestade. Mas a montanha fosfórica é, à primeira vista, mais sorumbática que ameaçadora: parece uma anciã a quem foi impingida, como maldição, a infindável existência mineral (…) A cabeça rugosa explode em um chororô de lava e a cabeleira de fogo cai, cobrindo toda a pele. É um vulcão em erupção, mas nada de ribombos calamitosos: permanece, isso sim, o estertor, como se uma noz estivesse presa na glote da montanha, ou então como se ela sofresse de um chiado, um sufoco no pulmão, e tentasse a todo custo dizer qualquer coisa…
Por um lado, o livro tem muitos momentos engraçados que advém do uso criativo da linguagem. Dei risada várias vezes ao longo da leitura. Por outro lado, parece que a autora tem dificuldade em controlar a verborragia e se entrega ou a discursos quase-filosóficos que se arriscam a ficar cansativos, ou a longas descrições fartamente adjetivadas, com imagens que vão se acumulando umas sobre as outras.
Ela mesma faz essa ressalva a certa altura:
Todo esse lero-lero e quase perdemos nossos amigos de vista.
Entre a criatividade e o lero-lero, uma machadada.
(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)
Está escrevendo um romance? Quer uma leitura crítica 100% sincera? Ou uma revisão? Escreva para decio.machadada@gmail.com
Gosta das resenhas? Considere o acesso pago. Só R$10 por mês.

