Madame K - Em “Josephine, minha neguinha”, os contos foram escritos entre os 22 e os 28 anos, mas só agora ganharam visibilidade nacional com a semifinal do Oceanos. Como você vê seu processo de amadurecimento literário?
Breno Fernandes - Comecei a escrever e a ambicionar ser escritor com 9 ou 10 anos, talvez antes. E desde aquela época me parecia óbvio que eu não tinha nada a dizer a quem fosse mais velho do que eu. Por isso me dediquei às narrativas infantojuvenis sem titubear, mesmo à medida que a adolescência avançava. O fato de ter conseguido publicar dois romances infantojuvenis escritos nesse período (O mistério da casa a colina, lançado aos 15, e Mil – a primeira missão, lançado aos 19), é claro, fortaleceu a crença de que aquele era o meu gênero literário. Somente quando me aproximei ou adentrei os vinte anos tive vontade de produzir literatura adulta (expressão que acho engraçada porque parece eufemismo para texto erótico, mas não era o caso).
Os contos de Josephine… surgiram nesse período, entre tantos outros que se mantêm inéditos porque não encontraram um projeto de livro no qual se encaixar ou porque hoje os menosprezo. Verdade seja dita, quando em 2022 fui checar na gaveta de inéditos qual original eu poderia inscrever no Prêmio Selo Literário João Ubaldo Ribeiro, ao ler Josephine…, não me identifiquei mais com o livro. Creio ter hesitado em enviá-lo. Mas meu eu de 36 anos teve um raro lampejo de autoestima e pensou que precisava honrar quem eu era dez anos atrás. Talvez tenha sido um movimento por meio do qual eu também quisesse provar que aquele livro — cuja quantidade de nãos recebidos de editoras eu perdi a conta — tinha valor. Seja como for, passei a mexer nele como se fosse o editor de um jovem autor, que por acaso era eu mesmo.
Cada vez mais desacredito que a experiência cumulativa da escrita garante que escrevamos melhor. Acho que, em parte, o amadurecimento técnico tem a ver com o fato de não querer se repetir, ou então de dobrar a aposta no que funcionou muito bem antes, de modo que as estratégias narrativas básicas vão dando lugar a estratégias mais ousadas, ao mesmo tempo que uma certa voz narrativa reconhecível vai se consolidando. Ainda assim, o próximo projeto pode sair uma bela duma porcaria. Portanto tenho preferido cultivar a ideia de que amadurecimento literário tem mais a ver com atitudes como a que meu eu de 36 anos tomou do que com escrever melhor.
MK - Sua formação acadêmica inclui temas como nacionalismo, infância, guerra civil, tradução e identidade. Essas são áreas densas e complexas. De que modo esses interesses pautam sua criação ficcional?
BF - Acho que a única vez que a academia influenciou diretamente minha criação literária foi na concepção de Os fanzineiros. Eu estava na graduação de jornalismo, e uma colega me perguntou se conhecia algum livro paradidático que servisse para apresentar a mídia jornal em sala de aula. Fui pesquisar e encontrei uma porção de manuais do tipo como fazer um jornalzinho escolar. Mas eu achava que um romance empolgante poderia não só apresentar conceitos básicos do texto jornalístico, mas também tratar do mais importante: a ética da produção de notícias. Então, como trabalho de conclusão de curso, escrevi em 2010 um romance que, mais tarde, ganharia segunda versão e o título de Os fanzineiros, um livro sobre fake news, mas que nem trazia esse termo, pois ele só se popularizou, salvo engano, na primeira eleição de Trump. Por sorte, por questões editoriais, Os fanzineiros saiu em 2018 e deu tempo de atualizá-lo, e inserir a expressão fake news, para contemplar o espírito do tempo.
MK - Você escreve tanto para público infantojuvenil quanto para leitores adultos. Como muda para você o processo criativo, a linguagem, os desafios, quando escreve para jovens em comparação a quando escreve para adultos?
BF - Por muito tempo tratei a literatura infantojuvenil como literatura educativa, provavelmente porque a conheci associada ao ambiente escolar ou porque, já no início da minha carreira de escritor, passei a visitar escolas que haviam selecionado meu livro como paradidático. E, quando falo de literatura educativa, me refiro a uma visão específica do que é esse tipo de texto: moralista e palestrinha, como aquela poesia de Bilac: Meu filho! termina o dia…/ A primeira estrela brilha…/ Procura a tua cartilha,/ E reza a Ave Maria!— um conjunto de decisões literárias que costumo chamar de vontade de pedagogia e que, para falar a verdade, tenho visto com frequência em obras recentes da literatura brasileira para adultos.
Não sei dizer ao certo quando ou como minha perspectiva mudou, mas sei que conversar com os leitores, saber de seus gostos, foi fundamental para essa mudança, não para lhes oferecer especificamente o que desejavam, e sim para perceber as amarras do meu processo criativo. Posso dar um exemplo: os animes Death note e Attack on Titan trazem como protagonistas jovens que se vilanizam ao longo da história. Eu os assisti por dica dos leitores e, para mim, eles representam bem o mais importante aspecto, digamos, educativo da ficção infantojuvenil: ajudar os jovens, por meio dos imprevisíveis caminhos da experiência estética e das identificações que as narrativas geram, a comungar da bagunça que é ser gente.
MK - Crescer no sertão da Bahia, em Riacho de Santana, certamente marcou sua vivência. Que memórias ou tradições desse lugar você sente que se repetem ou se transformam em suas obras? Há algo que você cultiva de lá que considera fundamental para sua voz literária?
BF - Nasci em Salvador, fui para Riacho nas primeiras semanas de vida e só voltei a morar em Salvador aos 12 anos. E creio que só fui gostar de morar em Salvador — ou, dito de outro modo, me senti em casa em Salvador — dois anos atrás, quando voltei de uma temporada de cerca de três anos no Sudeste. Mas ainda hoje me vejo num entre-lugar: sertanejo demais para o litoral, litorâneo demais para o sertão. E não é um sentimento que vem de dentro apenas, ele também é alimentado pelo estranhamento do outro. Volta e meia, por exemplo, alguém me pergunta se eu sou de fora, acusa meu sotaque de não ser suficientemente local. O jeito de lidar com isso foi inventar, mitificar minhas origens, daí nasceu o Estado de Bahinas, a região cultural na qual me reconheço, que pega mais ou menos de Montes Claros a Vitória da Conquista. Por isso sonho que nosso hino seja feito por Beto Guedes (cuja família, como a minha, é riachense) e por Elomar.
Bahinas é uma invenção recente, mas na prática eu já vinha imaginando uma série de cidadezinhas interioranas fictícias, presentes nos meus primeiros livros infantojuvenis, que na prática eram representações dessa cultura. Ou melhor, representações para essa cultura, já que Os fanzineiros se passa numa cidade chamada Pouso Forçado, de cultura ítalo-sertaneja, sem correspondência com a realidade. Creio inclusive que meus três primeiros livros se passem no interior semirrural por algum motivo terapêutico, como forma de, em meio a uma adaptação traumática a Salvador, à sua violência e à sua gaiatice, encontrar refúgio mental num ambiente familiar. Na última década, porém, adaptado como pude à capital, iniciei o que chamo de ciclo soteropolitano, que já está com quatro livros: 1. Mendax, o ladrão de histórias (2017). 2. A mão do poeta (2019). 3. Se eu pudesse, Danila, te levava pra tomar banho de mar em Guarajuba (2021). 4. As fotos roubadas (2022). Pensei em incluir Josephine, minha neguinha nesse ciclo, mas ele é um híbrido. Há pelo menos dois contos ali que têm personagens (ameliepoulain) ou cenários (A noite das garrafadas) de Bahinas. Agora, em 2025, estou em crise com a literatura. Mas, se um dia o ânimo mudar, a maior parte das histórias que ainda quero escrever remetem a Bahinas, como a história de por que Sant’Ana desistiu de ser a padroeira de Riacho de Santana e se tornou a guardiã de Caetité, ou ainda, a história desse puteiro flutuante que há anos apareceu na minha cabeça, o Vapor dos Prazeres, que, em meados do século passado, se deslocava pelo Médio São Francisco, levando passageiros e os entretendo com música, jogatina e sexo durante a viagem.
MK - Em obras como Os fanzineiros, se fala de amizade, de mentiras, de fake news — temas muito contemporâneos. Qual o papel que você acredita que a literatura pode ter para questionar ou intervir nos dilemas éticos do mundo digital, das redes sociais, da disseminação de informação?
BF - Eu não saberia dizer qual papel a literatura pode ter na intervenção de nada, mas acredito em algo que, salvo engano, ouvi melhor formulado por Vladimir Safatle numa entrevista televisiva dada a Bob Fernandes. Safatle dizia que, para além dos efeitos estéticos imediatos, a arte traz o benefício de, às vezes, nos ajudar a imaginar ou a visualizar o novo, algo que não existia no mundo antes de ser criado artisticamente. Desse modo, ela é como um exercício para o músculo da novidade, que uma vez tonificado nos serve para imaginar novas formas de viver em sociedade. Essa é, para mim, a melhor forma de compreender a máxima do estético é político. A arte não nos salva, nem sequer nos ajuda direta ou previsivelmente a resolver os problemas sociais. Mas sua existência pode ser notada na pavimentação de muitos caminhos que nos trouxeram até aqui, o que me faz supor que ela também fará parte dos caminhos que nos levarão a outras formas de viver em sociedade.
MK - No campo das letras e também na academia, você pesquisa tradução, alteridade e representação. Você considera que há lacunas ou vozes pouco ou mal representadas na literatura brasileira contemporânea, especialmente no que toca identidades negras, periféricas ou do interior?
BF - É claro que tem. E talvez nunca deixe de haver. Para além das exclusões históricas que existem na literatura brasileira e que vêm sendo denunciadas e combatidas nas últimas décadas, há o fato de que, como atesta Caetano na letra de Meu coco, o Brasil é uma nação grande demais para que alguém engula. É difícil e talvez seja mesmo impossível contemplar a contento toda a diversidade do país — o que não significa que isso não deva ser um horizonte que nos sirva de motivação à caminhada. Mas tem também o fato de que toda identidade é um construto dialético, sempre pronto a gerar uma antítese a partir daquilo que os psicanalistas chamam de narcisismo das pequenas diferenças. Veja o caso do qualitativo baiano. Eu e alguns amigos sertanejos radicados em Salvador com frequência provocamos os amigos nascidos e criados aqui em seus arroubos de tratar como baiano — se referindo ao estado, não à Cidade da Baía — muito do que a rigor é soteropolitano. Nessas horas nos identificamos como sertanejos ou interioranos. Mas há momentos em que, estando apenas entre sertanejos, focamos mais nas diferenças do que nas semelhanças. Riacho, por exemplo, é um sertão de cerrado, não de caatinga. A cultura do bode não é forte lá, mas a do pequi, sim, o que nos torna culturalmente mais próximos de Barreiras (370 km a noroeste) do que de Irecê (420 km ao norte). Por outro lado as três cidades compartilham o clima semiárido e os efeitos das secas, o que torna Vida secas, do alagoano Graciliano Ramos, uma obra mais condizente com nossa realidade do que boa parte dos livros do conterrâneo Jorge Amado. O argumento que quero defender com esses exemplos todos é que não creio que o jogo das identidades algum dia vá terminar. Apenas escolhemos, conscientemente e inconscientemente, as cartas e as fichas que queremos apostar em cada rodada. Na minha produção literária, essas escolhas aparecem de forma variada e contingente, sem nenhum projeto de longo prazo estabelecido. Às vezes na composição de personagens e da trama — Se eu pudesse, Danila… é talvez meu livro mais identitário, na medida em que o tema das identidades se transforma em discurso dos personagens —, às vezes na composição da linguagem — a dicção soteropolitana do narrador em terceira pessoa de Mendax… é fundamental para o efeito que o livro tem, de retrato da literatura local.
Esse assunto me mobiliza mais como crítico mesmo. O jogo das identidades pode ser uma eficaz estratégia de sobrevivência e de luta sociopolítica, sobretudo para as minorias (Chico Bosco explica isso muito bem no livro A vítima tem sempre razão?). Pode também ser um mote criativo e um organizador positivo para ampliarmos a bibliodiversidade nacional, pela via das representações (ainda que às vezes eu tenha a impressão de que, nos espaços de divulgação literária, como as festas literárias e as páginas de influenciadores, estamos reduzindo o literário a um de seus componentes, o representacional, que relativamente é o mais fácil de ser percebido e comentado, as questões de linguagem, de gênero ou de técnica narrativa exigem mais treino). Mas, como toda estratégia, o jogo das identidades cobra seu preço, podendo ser criativamente limitante tanto para escritores quanto para leitores. Vivian Gornick, crítica feminista americana, certa feita disse numa entrevista a El País que existe um ciclo mais ou menos assim no mundo acadêmico: uma ideia nasce, com sorte se desenvolve a ponto de virar teoria, e logo corre o risco de se tornar dogma, impedindo que novas ideias possam se desenvolver a ponto de virar teorias.
MK - Conte um pouco sobre a decisão de incluir personagens crianças ou jovens em suas narrativas — tanto fiéis ao universo infantojuvenil como quando aparecem em obras adultas. O que você percebe nas infâncias que lhe chamam atenção, ou como elas atuam como ponto de vista narrativo?
BF - Para além do que já falei, sobre a literatura infantojuvenil ser um gênero cuja escolha se deu pela idade em que comecei a escrever e sobre meu desejo de borrar a fronteira entre a literatura infantojuvenil e a literatura adulta, e fazendo gancho com o que acabo de comentar sobre as identidades, me interessa pensar a criança como o outro do adulto. Ou, fazendo glosa com Orientalismo, de Edward W. Said, me interessa observar a criança como o Oriente do adulto, isto é, como uma ficção inventada por adultos para servir de negativo à própria constituição da identidade adulta — que também é uma ficção, como apregoa a psicanálise: a gente cresce, mas o infantil em nós permanece. Essa dinâmica identitária criou uma mitologia sobre a criança que muitas vezes não encontra respaldo nas crianças reais, de carne e osso (a exemplo da fake news que Gonzaguinha espalhou, de que a resposta das crianças só pode ser pura), e que, do ponto de vista narrativo, rende ótimos conflitos e reviravoltas, seja na literatura infantojuvenil, seja na literatura adulta. Escrevi um artigo sobre esse assunto (O tópos da neocracia), em parceria com Beth Cardoso, escritora e professora de literatura da PUC São Paulo, supervisora do meu primeiro pós-doutorado. Nós analisamos como essa criança orientalizada ou mitologizada surgiu na literatura para adultos e elencamos escritores que escreveram obras contestando essa perspectiva, a exemplo de Jorge Amado, que, em 1937, com Capitães da areia, mostrou quão rápido estamos dispostos a tirar de crianças reais seu status de criança, caso elas não consigam se encaixar ou se manter no lugar que nós, adultos, idealizamos para elas.
MK - Ainda sobre Josephine, minha neguinha, cujos contos exploram diferentes formas de amor, que tipos de amor você considera sub-representados?
BF - Queria eu ter repertório suficiente para fazer um diagnóstico que não soasse tosco sobre as sub-representações da literatura brasileira. Essa é tarefa para o grupo de pesquisa da Prof.ª Regina Dalcastagnè, da UnB, que há anos mapeia quem faz e do que são feitas as obras da nossa literatura contemporânea. O máximo que posso dizer é que escolhi fazer um livro de amor por causa duma provocação de Saulo Dourado, que um dia, depois de ler um conto meu, falou algo do tipo: você tem uma porção de histórias que parecem prólogos de histórias de amor mais longas… Por causa desse comentário enxerguei a unidade que poderia gerar um livro de contos — e por alguns meses o projeto teve o péssimo nome de Prólogos de amor. Algumas histórias, como a que dá título à obra, já estavam escritas. Outras foram escritas porque eu queria explorar um cenário específico (como ameliepoulain, em que Salvador aparece bastante) ou uma cena específica (o ato de chupar o sangue de uma pessoa que você mal conhece, presente em O sangue e o silêncio). Outras ainda partiram da pergunta: que tipo de história de amor eu nunca li? Assim nasceram A história de Badu, sobre um amor gay entre um branco senhor de engenho e um negro escravizado no Brasil colonial, e A sete passos, sobre a formação de um trisal entre septuagenários.
Outro dia, não lembro onde, talvez no ensaio Alguma vez é só sexo?, de Darian Leader, li a provocação de que despir o parceiro é considerado erótico porque temos infinitas histórias que dão carga erótica a esse ato, solidificando a associação em nosso repertório sexual. Vestir a roupa depois de transar, ao contrário, não tem nenhum traço de erotismo porque a cultura ainda não colaborou — mas pode vir a sê-lo, brinca o autor, no dia em que a Netflix fizer uma série ou um filme extremamente popular, que traga um casal se vestindo junto e lubricamente. Acredito que a mesma provocação possa valer para o amor. Assim, tanto quanto ajudar a equilibrar as sub-representações, a literatura pode nos ajudar também a inventar (ou talvez seja melhor dizer: nos ajudar a dar contorno a) novas formas de amor, o que hoje em dia me interessa mais do ponto de vista ficcional. Vale notar como o filme Her, de 2013, voltou ao imaginário coletivo, ainda que em forma de piada ou de meme, quando passamos a falar sobre os namorados virtuais que o atual estágio da inteligência artificial possibilitou surgir.
MK - Qual foi o papel dos prêmios literários (como o Selo Literário João Ubaldo Ribeiro) na sua carreira, tanto para visibilidade quanto para seu desenvolvimento pessoal como autor? Existe alguma história de recusa que marcou você?
BF - Eu sou bastante inseguro quanto ao que escrevo, tenho dificuldade de falar até para a minha agente por que ela deveria ler qualquer original que lhe mando ou por que acho que este ou aquele trabalho merece ser publicado. Minha abordagem é sempre a do: isso presta? Funciona? Te comove? E não é charme. É da minha estrutura psíquica, uma insegurança que vaza para outros âmbitos da vida também. Por saber disso, entendi que devo enviar livros à minha agente e às editoras e devo me inscrever nos prêmios independentemente do que sinto em relação à obra. Quanto aos prêmios que conquisto, se não bastam para me ajudar a desenvolver uma postura mais confiante, pelo menos me ajudam a não passar mais tempo do que já passo chafurdando no gozo da insuficiência. E não são só os prêmios que ajudam. Ser escolhido por editoras também. Hoje em dia é bem mais fácil e, em comparação a anos ou a décadas atrás, é relativamente mais barato bancar uma autopublicação. A depender da sua rede de contatos e do seu tino para vendas, a autopublicação é até mais lucrativa, já que as editoras costumam repassar ao autor apenas 10% do valor de capa de cada exemplar vendido por elas. Mas não tenho segurança para me publicar. Preciso do conforto psíquico de saber que, seja uma grande, seja uma pequena editora, alguém viu algum potencial literário ou comercial naquilo que escrevo. O processo, no entanto, não deixa de ter sua dose de angústia. Veja o caso de Josephine… O livro ficou pronto em 2015 e ao longo de sete anos eu o apresentei a editoras baianas e sudestinas de todos os tamanhos, sem nunca ter recebido um sim, exceto das Edições K, um coletivo de autores que apareceu na cena literária baiana na primeira década dos anos 2000 e que tem como um de seus fundadores Patrick Brock. Ele gostou do meu original, mas não conseguiu financiamento para lançá-lo. Seu sim, no entanto,significou tanto para mim que, quando surgiu a oportunidade de publicar pelo Prêmio Selo Literário João Ubaldo Ribeiro, não hesitei em dedicar Josephine… a ele.
Outros livros também demoraram a sair: As fotos roubadas, minha primeira novela adulta, foi escrita em 2015, mas só consegui publicá-la em 2022, graças à edição anterior do João Ubaldo Ribeiro. Os fanzineiros ficou pronto em 2012, mas só saiu em 2018, ano em que Mendax… ficou em segundo lugar na categoria romance juvenil do Prêmio Biblioteca Nacional. E, se a memória não me falha, tenho cinco romances juvenis, escritos entre 2015 e 2024, que devem seguir o mesmo ritmo, porque só colecionaram nãos até agora, isso quando o pessoal do mercado editorial topou lê-los. Então posso dizer que, infelizmente, até agora, esses prêmios todos não me abriram mais portas nem tornaram mais fácil ou mais rápido o caminho entre o livro ficar pronto e chegar às livrarias. Não me ajudaram nem sequer a ser convidado com cachê para as festas literárias da Bahia, só participei de uma desde o fim da pandemia. Mas, como disse antes, eles têm uma importância subjetiva.
MK - Agora que você está na semifinal do Oceanos, quais suas expectativas para possíveis repercussões? E o que significa para você estar numa premiação que abrange toda a língua portuguesa, com autores de países diversos?
BF - Eu ainda não processei direito a classificação. Oscilo entre a negociação — aceitação com autodepreciação, afirmando que com certeza foi a minha foto de autor que cativou o júri — e o completo tilt mental, que é sintoma de negação — porque não existe lugar na minha realidade psíquica em que faça sentido meu nome e o de Chico Buarque estarem numa mesma lista, ainda mais numa tão pequena e de caráter internacional, com outros nomes que admiro e leio, a exemplo de Mia Couto e de José Eduardo Agualusa. E o desconserto só aumenta quando lembro que esse ano, pela primeira vez, pensei em desistir da literatura. Cheguei a falar disso com amigos próximos e com minha agente. Bateu um cansaço, acentuado pela crise dos 40, de gastar anos escrevendo cada livro e de, em seguida, ter de esperar pelo menos meia década para vê-lo publicado. Some-se a isso o fato de eu ter uma doença congênita, um grau leve de osteogênese imperfeita, que ainda não me fez perder a autonomia, mas dá a meus ossos uma condição quebradiça acima do comum, não me permitindo fantasiar que terei tempo ou condições físicas para escrever tudo ou quase tudo que tenho em mente. E não me interessa ser um autor de obras póstumas. Essa indicação ao Oceanos, portanto, mesmo difícil de processar, me trouxe uma lufada de esperança. Não muita, porque, conversando com o pessoal do mercado editorial do Sudeste, ficou claro, por comparação com autores anteriormente indicados ou com trajetórias similares à minha, que eu ainda preciso angariar um capital simbólico absurdo para realizar algumas metas pessoais no curto prazo, como republicar a metade da minha obra que está fora de catálogo (Mendax…, …Danila…, A mão do poeta e As fotos roubadas). A semifinal está longe de ser suficiente para tal. Mas pelo menos já considero voltar a escrever ficção — coisa que não faço há meses. Tendo participado de júris de pequenos prêmios literários, sei que esse tipo de seleção tem algo de aleatório e que seu valor simbólico, em nosso tempo ultra veloz e ultra sedento por novidades, torna-se rapidamente obsoleto. Por isso, quando tenho a sorte de ser contemplado, tento dar à vitória (e estar nessa semifinal é uma vitória) a única forma pela qual ela pode me beneficiar diretamente: a de uma injeção de ânimo para seguir encarando o desejo — desejo no sentido psicanalítico mesmo, como algo que insiste, mas nem sempre dá prazer — de escrever histórias que ninguém pediu.








