Fotografia da minha autoria


O conceito de liberdade tem tanto de extensível, por se manifestar nos contextos mais diversificados, como de frágil, por sentirmos que não o podemos dar por garantido. É, portanto, imprescindível continuarmos a lutar por ele, porém, será que temos todas as ferramentas necessárias? Na novela gráfica de M. L. Vieira refletimos sobre o assunto.


 esbater fronteiras, pensar a liberdade

Danificada leva-nos para uma fábrica do futuro, onde «máquinas e meios de transporte são montados por um batalhão de clones». Lá, as mulheres são meras cópias umas das outras, tendo só um número para as identificar. Com os dias a serem, igualmente, uma replica dos anteriores, 2518 ambiciona algo diferente para si, o que parece ser um erro.

Há, aqui, várias fronteiras que se esbatem, porque deambulados entre o que é real e o que é imaginação, entre monotonia e vontade de quebrar amarras, entre o silêncio e o barulho dos nossos desejos a fervilharem. As regras daquele lugar são claras e não há uma mulher que ouse contrariá-las — porque não foram incentivadas para tal, porque não foram construídas para terem personalidade e opinião —, mas em 2518 surge uma nova luz, uma nova voz, e isso é assustador, tanto para ela, como para quem a rodeia.

Esta história distópica, que aparenta sustentar-se numa perfeita linha de montagem, pretende confrontar-nos com aquilo que tentam definir, de um modo subtil, como um ato de rebeldia que necessita de ser revisto, reparado, para que o objetivo central seja cumprido sem qualquer perigo. É evidente que o facto de ser um clone não escapa ao leitor, o que torna a reflexão ainda mais pertinente: por um lado, porque nos mostra o lado falível das máquinas e, por outro, porque nos mostra que em qualquer contexto pode existir uma tentativa de silenciar quem mostra ser oposição. Assim, num cenário que recorre à ficção científica, a autora traça uma crítica subtil, no entanto, inegável.

«Agora sei que estou verdadeiramente só. Sozinha com sonhos e esperanças demasiado grandes para esta prisão»

Aliás, um dos pontos centrais da obra, para mim, é o quanto a sua crítica consegue ser plural, porque não só nos impulsiona a pensar num mundo totalitarista, impessoal e mecanizado, no qual o sonho e o pensamento são vistos como ameaças, mas também porque abre a discussão acerca de tudo aquilo que é imposto à mulher na sociedade. Não obstante, senti que a concretização poderia ter sido mais impactante, isto porque, a dado momento da narrativa, faltou aprofundar um pouco melhor algumas questões, para que não ficassem pontas soltas, e ter diálogos que acrescentassem mais à ação.

Danificada aparenta ter uma premissa simples, mas, apesar das suas fragilidades, leva-nos a refletir sobre liberdade, individualidade e resistência. Fiquei impressionada com as ilustrações, com o quanto nos hipnotizam e nos transmitem as diferentes sensações da protagonista. Só não me arrebatou como estava à espera, uma vez que senti falta de um pouco mais de equilíbrio entre todas as componentes — mas não desgostei do que encontrei, uma vez que não deixa de ser uma obra bastante promissora e introspetiva.


 notas literárias
  • Desafio: Alma lusitana
  • Lido a: 9 de fevereiro
  • Formato de leitura: Físico
  • Género: Novela Gráfica
  • Banda sonora: Força, Da Weasel | Control, Halsey