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CONTO

André Vieira

A semana vagarava na escrivaninha abarrotada de páginas em branco. Na mente vazia, afoita por ser engravidada por ideias sobre-humanas de espíritos convenientes de-horas-dos-apertos, ressoava o canto dos bronzes de começos similares e aberturas semelhantes, pontas prontas retráteis para encaixar no busto de gesso, ainda molhado, mais um nariz de cera que acabara de pinçar da memória de traças graças à vida dedicada à madeira mofada de ex-topins carrancudos que lhe tiravam o sonho e punham-no de cócoras num claro de mais uma noite insone — “este terá de dar”, pensava consigo mesmo antes de lustrar a verruga preta e adornar, um pouco mais, um pouco menos, os pelos fundos das narinas brilhantes; só assim para costurar mais uma peça gordurosa ao remendo franksteiniano que tomava corpo e ganhava vida na casa vazia.

“É bom que desta vez não caia, ou melhor não derreta à exposição de luzes e emoções”, remurmurava ao som do silêncio lá fora. É bom mesmo.   Soube o que era felicidade pela primeira vez quando viu-a deitada no quarto, refletindo sobre os malhes da existência e falta de açúcar no sangue. “Você tem nome?”, perguntou tímido, ainda maravilhado pelos olhos azulinhos que lhe arrancavam um sorriso bobo daqueles de infância de guaraná.

Ela estremeceu os ombros e foi lhe dar a mão, como se a palavra só viesse após o trato entre os dedos, “alguns me chamam de musa, outros me proferem maldições e malditos logo que me encontram pronta, posta, preparada para lhes relevar uma verdade reticente ou uma mentira inesperada; paciência. Homens, mulheres, na mocidade mordaz ou na velhice velhaca, todos me chamam pelo o nome que os agrada mais, e não como na verdade me chamo”. 

— “E como gostaria de ser chamada?”, interveio enquanto puxava e se acomodava na cadeira em frente ao caderno, à folha e ao vazio existencial que o preenchia na tarde tomada pelo ócio.

— “Na verdade, não tenho nome”, suspirou após uma grande pausa que a deixou retraída e exausta. “O primeiro a me dar um nome foi um senhor antigo, de olhos enormes e mãos pequenas, que me enlaçou forte num abraço e sussurrou ao pé dos ouvidos recobertos pelo chapéu pontudo de palha: ‘tu te chamarás emplumada, e contarás estórias desde o zênite’ — quando me lembro desse abraço, nem lembro mais quem sou hoje. Com aquele senhor vivi os melhores momentos da vida, pintando de amarelo e azul o que só podia ser preto, branco e cinza. Revoei estradas distantes e veredas próximas, adentrei matas profundas e oceanos rasos, flanei por vilas tardias e cidades solenes, andei pelas vidas alheias e memórias desconhecidas, mas tudo junto à sua companhia. Dizem que foi ali que nasceu a alegria.

—“E o que é alegria?”, ecoou o som da escrita sobre a voz, enquanto direcionava as palavras à página quase cheia de garranchos mal-ajambrados e ideias bagunçadas, mas não desistiu: respirou fundo e no amalgama que se formava entre os dentes amarelos, bramiu sete sílabas à sua companheira descolada de seus devaneios inconvenientes: “E o que é alegria”?  

— “Alegria”, disse de pronto, como se sua resposta também lhe representasse uma dúvida antiga, depositada num tempo que hora não tinha nome, nem tempo, nem lugar. “Alegria é poder ser seu próprio senhor e seu próprio carrasco; alegria — juntava o ar para enlaçar as palavras e dizê-las duma só vez, como numa oração rápida — é poder juntar o que acreditamos e transformar em sentimento, ato, palavra; é olhar pro mundo, pra todos os mundos que existem por aí e ser entendido, sem com-preendido, amado e abraçado, como num conto de fada. Mas alegria não tem dia pra acontecer, nem ponto, hora, cara, memória pra bater; só vem quando as mãos estão vazias e o peito fica preenchido, como passarinho que canta no começo de dia.

—“Ser feliz é ser útil?”, se enroscava na espiral pra deixar ser tomado pelas palavras de outrem, pela felicidade clandestina que lhe enrijecia os dedos e enrubescia as maçãs: “pois é, querida. Não é preciso ser ágil para ir longe, nem sábio para saber muito, nem forte para carregar tudo na cruzada com a tinta e folha; desde que se possa ir junto, mão em mão, olho em olho, beijo em bochecha, se pode ousar de dizer o inominável, descrever o abominável, criar o inimaginável em colunas de marfim guardadas por Quimeras de outras épocas, estarei bem. Sim, meu bem, amar é um verbo que transborda páginas e reescreve as horas, só assim para ser redescoberto quando abatem as derrotas. Sim! Perdemos, mas perdemos juntos. Sim! Vencemos, mas vencemos juntos; é do repouso de lençóis brancos que nascem os amanhã tardios”. Lacrou o envelope com giz de cera e cola plástica, só pra ter certeza. Entregou a carta ao atendente, seguido da escolha de “envio simples em envelope de papel”; não era preciso que houvesse pagamento de selo.  

Depois de duas semanas recebo uma carta de um amigo distante: “meu casamento será mais cedo este ano”.

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Publicado por André Vieira

Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira