Ao expor as feridas do luto, obras brasileiras contemporâneas constituem um complexo mosaico
Bruno Inácio
De Paula (Isabel Allende) a Morreste-me (José Luís Peixoto) ou de A Invenção da Solidão (Paul Auster) a Fazes-me falta (Inês Pedrosa), o luto é tema recorrente na literatura mundial, com abordagens que circulam entre a delicadeza, o remorso, a saudade, a revolta e a aceitação.
Não por acaso, o tema parece longe de ser esgotado, ainda que vez ou outra apareçam livros com abordagens parecidas. Não fossem as sílabas do sábado (Mariana Salomão Carrara) e O último sábado de julho amanhece quieto (Silvana Tavano), ambos lançados recentemente, contam histórias de sábados em que as personagens principais – mulheres grávidas – perdem seus maridos. O luto em uma situação tão específica e desafiadora norteia as narrativas e as coincidências estão longe de tirar qualquer mérito do trabalho das duas escritoras.
Mariana Salomão Carrara, uma das vozes mais autênticas da literatura brasileira contemporânea, sabe como construir frases que ecoam, provocam e, às vezes, até intimidam (no melhor dos sentidos). Silvana Tavano, por sua vez, oferece um ritmo que funciona como convite a um intenso mergulho, tanto nos momentos de aconchego quanto nos de angústia.
Porém, os livros das duas autoras estão longe de serem os únicos exemplos recentes de abordagens do luto na literatura brasileira. Tiago Ferro e Noemi Jaffe, por exemplo, olharam com bastante coragem para o tema, ao escrever sobre suas experiências pessoais de perda em O pai da menina morta e Lili: Novela de um luto, respectivamente.
Existem, ainda, três livros lançados nos dois últimos anos que se destacam por apresentar perspectivas bastante originais a respeito do luto: Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades (Georgina Martins), Memória de ninguém (Helena Machado) e Quando as árvores morrem (Tatiana Lazzarotto).
Três formas de luto

Em seu primeiro livro para adultos, Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades (Patuá), a autora Georgina Martins recorre à autoficção para enfrentar traumas que não se limitam ao luto. Aqui, a saudade provocada pela morte do marido se mistura a um olhar mais atento e demorado ao relacionamento existente até então.
A personagem-narradora se dá conta das violências que sofria no cotidiano, ao refletir sobre a dinâmica da relação com o marido recém-falecido. Identifica, a partir de lembranças, toda a prepotência do homem com quem dividiu a vida. Ela enxerga, ainda que tardiamente, o muro construído por alguém que se considerava intelectualmente superior e, por isso, fazia questão de menosprezar os seus gostos, ideias e paixões.
Não por acaso, o título Há muitas formas de se fazer macarrão e outras brutalidades parece longo demais num primeiro momento. Porém, à medida que a leitura avança, a escolha das palavras parece precisa para exemplificar toda a violência que acompanha a narrativa, uma vez que a arrogância do marido faz com que ele ridicularize a esposa até mesmo por ela desconhecer o “jeito correto” de preparar o alimento. Reconhecer que existem muitas formas de se fazer macarrão é exorcizar o fantasma do menosprezo e, por mais doloroso que seja dizer isso em voz alta, encontrar no luto uma oportunidade de libertação, de reconstrução.
Reconstrução também é uma das palavras-chave de Memória de ninguém (Nós), romance de estreia de Helena Machado. Afinal, a narrativa traz uma protagonista em meio a uma crise existencial desencadeada pela morte do pai. Nesse contexto, ela se depara com traumas de infância e com relações familiares já bastante desgastadas. Aqui, pela primeira vez, a personagem parece olhar ao seu redor sem idealizações ou falsas expectativas.
O texto, muitas vezes ácido, expõe as feridas em ritmo acelerado, como se a personagem remexesse num baú às pressas, para doer tudo de uma vez. Lembranças se misturam a quebras de paradigmas. Imagens endeusadas são desconstruídas num ato iconoclasta urgente e necessário. Assim como Georgina Martins, Helena Machado constrói uma narrativa em que o luto caminha em direção totalmente oposta ao conforto, com potência para reorganizar estruturas e revisitar o passado, por mais difícil que esse movimento seja.
Já a visita ao passado proposta por Tatiana Lazzarotto em Quando as árvores morrem (Claraboia) é diferente. Há muita ternura, embora os traumas também estejam ali. A narrativa acompanha uma mulher que, após ser informada sobre a morte do pai, se dá conta das muitas leituras possíveis proporcionadas pelo luto, seja por meio da memória ou da linguagem.
A partir disso, inicia uma jornada real e simbólica em busca da sensação de proteção que desfrutou na infância, ao mesmo tempo em que, pouco a pouco, se despede do pai. Para adiar essa despedida, ela viaja ao vilarejo em que passou a infância para tentar evitar que a velha árvore do quintal da casa em que morava seja derrubada.
A escrita da autora chama atenção pelo tom poético em que aborda o luto e pelo seu ritmo próprio e maduro. As frases de Tatiana Lazzarotto parecem ter o exato tamanho que pedem, numa alternância precisa entre a concisão assertiva das frases curtas e o fôlego renovado das frases longas.
Uma longa ferida

Não é de hoje que a literatura se debruça sobre grandes temas universais, com obras capazes de oferecer os mais diversos olhares e abordagens. O luto certamente está entre os mais ricos para a ficção, justamente por tocar em questões que as pessoas, em geral, evitam pensar a respeito.
Não por acaso, nos últimos anos o tema tem aparecido bastante em excelentes obras, não apenas no Brasil, mas em outros países – Aprender a falar com as plantas (Marta Orriols) e A ridícula ideia de nunca mais te ver (Rosa Montero), ambos escritos por autoras espanholas, são apenas dois entre os muitos exemplos que poderiam ser citados.
Esse olhar para a morte tem se transformado a cada dia, especialmente em razão dos livros que se comprometem a abordar o tema a partir de perspectivas pouco utilizadas. Assim, autoras e autores como Georgina Martins, Helena Machado, Tatiana Lazzarotto, Mariana Salomão Carrara, Silvana Tavano, Tiago Ferro e Noemi Jaffe oferecem um rico panorama a algo tão complexo e temido, sem clichês ou receitas pré-fabricadas que prometem a felicidade.
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