Não há duas sem três. Maria Francisca Gama (MFG) ameaçou escrever mais, e cumpriu o agoiro. Precedido por A Profeta e A Cicatriz, Filha da Louca aparece após um ano de louros literários com A Cicatriz: o livro mais vendido em 2024 do grupo Penguin Random House Portugal1, o prémio Livro do Ano de 2024 em Ficção Lusófona pelos Prémios Bertrand2, e Maria Francisca Gama reconhecida na Lista Forbes 30 Under 30 na categoria Artes. Em 2024, Maria Francisca Gama apareceu como ceifadora: a cada porta que bateu, a sua gadanha colheu curiosos e membros do meio literário, todos vítimas da implacável viralidade d’A Cicatriz, deixando por detrás de si um rasto de presença digital e a ameaça de que o faria novamente muito em breve.
O título da nova obra já tinha muito a prometer. Filha – da – Louca. Já sentenciava um destino semelhante ao tomado n’A Cicatriz: mulheres + tema socialmente fraturante. Desde a minha crítica a esse livro3, a minha curiosidade mórbida pela sua obra só aumentou; via-me quase expectante de qual seria a figura que faria desta vez, tentando-me refrear e dando razão à posição politicamente correta de que não poderia fazer um juízo de valor a uma obra por ler. Mas só o próprio título já criava as suspeitas que, agora depois de lido, se vieram a confirmar.
É com alguma infelicidade que reitero que, com Filha da Louca, pouco a autora desenvolveu os seus poderes de cognição, e que consequentemente se traduziu numa obra igualmente inapropriada na análise de um problema que devia ser tratado com respeito – se da outra vez foi sobre violação, agora foi sobre distúrbio de personalidade borderline. Na falta de talento, a autora maltrata o conceito de “empatia” para justificar o porquê de fazer uma roleta de temas socialmente difíceis invés de ter a criatividade suficiente para pensar uma trama que não envolva superficializar temas para os quais não tem estofo intelectual para narrar. Convido agora os meus leitores a navegarem comigo, ponto por ponto, as problemáticas do livro, mas também o que representa a figura de Maria Francisca Gama no meio cultural português.
Ainda antes de chegar ao sumo da trama, já a forma narrativa e escolhas gramaticais me desenrolavam o novelo das pretensões de MFG com este livro. Logo no Capítulo Um e subsequentes, a forma como a autora decidiu estruturar os capítulos e a progressão narrativa chamou-me imediatamente à atenção: por regra, capítulos do tamanho de três páginas, não raramente ainda divididos por asteriscos a meio, normalmente dando ênfase a alguma frase melodramática no início ou fim do capítulo, separado graficamente do resto do texto. Escolha peculiar, tendo em conta que brutaliza a progressão narrativa e que atrapalha a experiência de ler. Os capítulos curtíssimos pareciam-me servir o mesmo propósito que as frases stacatto das legendas do Instagram da Cristina Ferreira: obrigar o leitor a fazer pausas na leitura, obrigando-o a vergar-se perante uma solenidade que não existe, manufaturando profundidade que quem escreve não consegue obter senão com recurso ao ponto e parágrafo. A escrita força o leitor a ser conivente na sua farsa, o que me incomodou por demais.
Com este alerta fui prosseguindo na minha leitura. Já sabemos que Maria Francisca Gama é dada ao melo dramatismo, por isso não é de espantar que o livro comece com a notícia que a personagem principal, Matilde, se torna órfã de mãe e agora de pai. Faz algumas considerações banais sobre o luto durante 30 páginas, até ao momento em que se dá o plot twist que se arrasta até ao final do livro: a mãe não morreu, está sim internada numa instituição psiquiátrica, facto escondido pelo seu pai até à sua morte.
“Desdobro-o, para esclarecer as dúvidas. É um recibo de um lar. Tem o nome completo da minha mãe e data do mês passado.”
Já nem mencionando a pouca credibilidade deste plot twist (A filha nunca pediu para ver a campa da mãe? Não houve funeral?), perante a execução fraquinha do fator de choque, a escolha acertada na cabeça da autora não foi engrossar a descrição e acumular tensão até ao momento derradeiro, mas sim repetir, umas páginas depois, a frase “A minha mãe está viva.” sete vezes.
Navegando um pouco mais pelo livro, vemos que a autora aprendeu com as críticas mais óbvias à sua obra anterior e poupou-nos aos apartes políticos e sociais, mas restava uma dúvida: se a autora faria novamente um desserviço ao tema que agora se propôs a narrar - distúrbio de personalidade borderline – para servir invés o sensacionalismo. Maria Francisca Gama achava que talvez se esquivaria aos dedos apontados escolhendo um transtorno não tão conhecido como, digamos, a depressão, mas eu insisto.
É, assim, que entra a mãe da personagem principal, Clara, enquanto veículo do tema principal: a experiência de ser “louca”, mas também sobre viver com alguém louco. A autora decide retratar a doença mental pelos olhos de uma filha em crescimento; assim, o livro progride com a progressão da doença mental de Clara, que se manifesta em crescente controlo da autonomia da sua filha. Clara é retratada pela autora como uma personagem unidimensional: doente mental, e um interesse, pintar, como veículo do seu distúrbio (canalizando os seus demónios para a tela, mas posteriormente destruindo as pinturas, parecendo-me a mim um estereótipo). Clara não trabalha, não tem amigos, não sai de casa. É uma descrição de uma pessoa inapta, instável, e perigosa para os outros e para si mesma – mas não um retrato descritivo o suficiente para serem apontadas incoerências médicas acerca do diagnóstico real de borderline - portanto, o suficiente para haver “plausible deniability”.
Desta maneira, vemos alguém que tenta impedir a sua filha de ir à escola, que culpa a filha por crescer e “abandonar a mãe”; alguém com comportamentos infantis (“Olhava-a e achava que ela também era infantil, uma criança menos criança do que eu, mas menos adulta do que o meu pai”) e isolada da sociedade; uma mãe que obriga a filha a tomar banho consigo já bem depois da infância (semelhanças sinistras com o livro I’m Glad My Mom Died de Jenette McCurdy, esse sim um relato real, com narração de emoções complexas e contraditórias perante uma mãe controladora), que empurra a sua filha nua para fora de casa como vexame; e a única responsável pelo isolamento da sua filha, que abdica de ter amigos, ir para o ensino superior, ou de ter projetos de vida autónomos por viver uma infância dedicada a controlar as emoções da mãe (“Tu não tens amigas! Achas que elas gostam de ti? Elas vão ver aquilo que eu faço e vão contar a toda a gente, vão gozar contigo na escola, vão dizer que eu sou maluca e tu não vais querer ser minha filha, ninguém te ama como eu, elas não te merecem nem merecem vir cá a casa!”).
Em suma, um retrato, por Maria Francisca Gama, de uma pessoa doente mental nunca poderá ser o de alguém com multitudes, uma pessoa funcional que sofre revés na sua carreira ou nas suas relações amorosas por sintomas difíceis de lidar. A única forma de o fazer é pelo sensacionalismo que lhe é tão característico. Fica outra vez por responder a questão que já coloquei na minha anterior crítica: se de forma propositada, se por inaptidão para produzir personagens complexas. Para quem se diz tão preocupado com a humanização das pessoas com transtornos borderline, a falta de capítulos no POV da mãe com distúrbio é gritante, talvez demonstrando, uma vez mais, que a autora serve como veículo da narrativa dominante no geral, mas em particular no que toca a doenças mentais: será sempre sobre o incómodo que a doença mental causa nos neurotípicos, e não o contrário.
Mas a cereja no topo do bolo, mais uma vez, seria o final ostentoso que a autora reservou para a sua personagem patologizada. Matilde finalmente visita a mãe no lar onde esteve secretamente internada durante sete anos. Clara, ao perceber que não era a intenção da sua filha voltar a trazê-la do lar para voltarem a viver juntas, numa tentativa desesperada de lhe ganhar controlo, atira um copo de pincéis para o chão e, com um caco, “observo-a a cortar-se no braço direito, com a força e precisão de um vitralista.” Não seria um livro de Maria Francisca Gama se não houvesse realismo sórdido em sacrifício de alguma personagem. E assim termina o seu livro, com um “Não.” da filha para resgatar a sua mãe louca do lar, destinada a lá apodrecer para sempre.
É precisamente nesta escolha de final – ruidosa, simplificadora e indulgente – que se torna visível uma tendência mais estrutural no trabalho da autora. Maria Francisca Gama tem o complexo de salvadora: muito sensível e muito empática, tem a crença de que qualquer tema ficará sensibilizado às suas mãos, depois de destinar os finais mais trágico-cómicos tanto à sua vitima de violação como à sua vítima de doença mental.
Talvez, em primeira análise, fosse difícil descortinar por que razão a autora se agarra com tanta veemência a temas que não domina. Mas parece-me que isso seja, na verdade, a vitória última do feminismo liberal: se antes apenas os homens brancos privilegiados se sentiam no direito de escrever sobre tudo, mesmo sem talento ou conhecimento, hoje há mulheres que, por também virem de contextos privilegiados (de classe, de cor, de escolaridade), usufruem do mesmo direito à mediocridade inconsequente.
Ainda assim, não vejo MFG apenas como objeto deste fenómeno, mas também como agente. Uma autora que usa a sua astúcia para disfarçar a fragilidade intelectual com o verniz da “literatura sensível”. A receita é simples: pegar em temas socialmente fraturantes e que habitam a psique feminina – violação, doença mental (já antecipo os próximos capítulos da sua obra: violência doméstica, traição, amor tóxico) – e tratá-los com o cinismo higienizado da “empatia”, palavra mencionada em Nota de Autora. A “empatia” tornou-se, no século XXI, uma forma politicamente aceitável de não exigir demasiado: escusa emoções mais violentas, e com isso, escusa também qualquer ação consequente. Não a tendo aplicado no primeiro livro, MFG tropeçou por sorte na fórmula que resulta – e voilá, temos um bestseller. Bastou transplantar a retórica da empatia para a literatura. A veracidade das descrições que escreve? Irrelevante. A profundidade do tema? Supérflua. O que importa é parecer consciente sem ter de o ser.
O mesmo gostaria de dizer sobre quem valida Maria Francisca Gama como agente cultural. Eva Brás Pinho, por exemplo, com o seu discurso emocionado na Assembleia da República a propósito do enquadramento legal da violação como crime público — e, no meio dele, uma citação d’A Cicatriz. Como se este livro fosse alguma pedra angular do pensamento feminista ou base sólida para legislar sobre crimes sexuais. Leu mesmo o livro, Sra. Deputada? Ou também é refém do seu próprio algoritmo, como os restantes mortais? Não devia sequer ter de lembrar que, n’A Cicatriz, a vítima de violação se suicida por enforcamento — esta é a obra que serviu de referência numa intervenção parlamentar sobre proteção de vítimas, quando tão obviamente poderia mencionar, entre outras, as três Marias, ou ainda Natália Correia no seu lado do espetro político. Alguém que é eu suposto reverenciar pelo seu serviço à Nação não me poderia ter dado um exemplo mais claro da pobreza de referências ou de visão para as questões sociais. Ou talvez seja só mesmo do PSD — choramingam que a esquerda detém o monopólio cultural, enquanto oferecem, voluntariamente, as mais pobres referências culturais. Só mesmo esta e a de Luís Montenegro confundir uma citação de José Saramago por Sophia de Mello Breyner, ou a do Tony Carreira nos jardins do Palácio de Belém para celebrar o 25 de Abril.
Desejo a MFG as melhoras. Se for tão adepta da literatura como diz ser (ou não se consideraria escritora), talvez retire algum conselho das minhas palavras para além do asco. Muitos artistas vingaram os críticos: penso no exemplo de Lana del Rey, cujo primeiro álbum, Born to Die, foi considerado pela Pitchfork um constrangedor 5.5/104, e que agora a celebra agora como “one of America’s greatest living songwriters”5. Não me parece uma situação análoga totalmente descabida: afinal, os livros de MFG são cultura pop portuguesa – altamente viral e que encheu prateleiras. Ainda assim, MFG não parece fadada a um percurso redentor, por tudo o que já tive oportunidade de analisar nesta minha crítica. Mas um crítico cultural é o eterno concedente do benefício da dúvida: ao contrário do leitor, livre para não ler mais livros, o crítico tem, uma e outra vez, de duvidar do seu julgamento, tentando criar alguma abstração para avaliar um “body of work”. Desejo a MFG que me prove errado: a maioria dos que vingam não são os mais talentosos, mas os mais dedicados. E se talento não há, talvez reste a perseverança — e nisso, quem sabe, possa ainda haver redenção literária.
Pense bem na oferta que lhe faço, cara autora. Seria um desfecho vencedor para ambas as partes: eu não teria de continuar a ler literatura indigente para satisfazer a curiosidade sádica daqueles que me seguem, e a autora poder-me-ia finalmente desbloquear no Instagram. Estou a brincar – MFG poderia finalmente ser considerada com uma autora séria invés de uma piada da qual o meio editorial não se pode rir, porque é a única que consegue vender livros. Não estava a brincar sobre a parte de estar bloqueada no Instagram - a escritora ainda não tem (para já – sempre importante fazer a ressalva) poder de encaixe suficiente para compreender que, nesta indústria, críticas sérias não são um capricho, são inevitáveis. Ou talvez, e mesmo depois das minhas palavras terríveis, tenha sobrevalorizado aplicar a palavra “escritora” a MFG: acho que uma dessas perceberia que, “quem vai à guerra, dá e leva”. Vulgo, se escreve livros, meio que percebe que a arte é um diálogo entre quem cria e quem lê … ou talvez de quem “consome” livros? Diga-me qual prefere.
Mas também eu percebi a fórmula. O meu texto mais bem-sucedido, à data, foi precisamente a crítica ao anterior livro da autora, A Cicatriz. Não sou inocente no diálogo artístico entre autora e crítica. Entre autenticidade e reconhecimento, há sempre um jogo de concessões. A fórmula que resulta, para mim, é ceder aos meus impulsos mais desenfreados, incentivada por um público que bate palmas quanto mais vulturino for o meu discurso. Como vê, Maria Francisca, talvez não sejamos assim tão diferentes. Talvez se sinta agora refém da fórmula que determinou o seu sucesso anterior. “Yeah, I don't know if you like me/ Sometimes I think you might hate me/ Sometimes I think I might hate you/ Maybe you just wanna be me.” Escritora, it’s so confusing sometimes to be a escritora.
A único traço distintivo que vejo entre nós será mesmo em que lado estamos da barricada – e não falo de ser ela quem escreve e eu quem critica. Bem sei que vivemos numa sociedade sôfrega por métricas quantitativas, mas por mais que me tentem enfiar goela abaixo que a viralidade do seu livro anterior significa alguma coisa sobre a qualidade da sua escrita, ou ainda que um prémio atribuído por leitores é suposto fazer-me reavaliar as palavras duras que lhe deixei no passado e que mantenho no presente, não me vergarão na minha convicção que Maria Francisca Gama não é a vanguarda intelectual. Nem ela nem aqueles que reproduzem as suas palavras de uma tribuna são vanguarda. Quem sou eu para o ditar, também estará na altura de me perguntarem: ninguém. Mas tenho o pressentimento de que é a minoria dissonante, aquela que que investe esforço intelectual em desmontar o que parece intocável no status quo cultural, político, e social, que carrega mais referências e mais cognição. São essas vozes que traçam o avant-garde que os normies irão consumir, anos depois, no fim da cadeia cultural. Que revolução cultural avançou a Maria Francisca pelas mulheres? Em que é que a sua “consciencialização” de problemas sociais é revolucionária? Não é. Ok, a Maria Francisca Gama não quer ser revolucionária! A palavra “revolução” assusta imensamente a comunidade beta! Tudo bem. Mas se for mesmo esse o argumento que a autora ou os seus partidários visualizam ao ler as minhas palavras, não conseguem não estar a dar-me razão. Há quem faça arte para pacificar, há quem faça arte para eletrizar (citando livremente Kendrick Lamar). Com este livro, a autora tirou-me mesmo as dúvidas sobre onde se quer posicionar. À terceira é de vez.
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Vemo-nos em breve!
Isabel Lobo
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