Revisitando o folclore de um trava-línguas, em outubro de 1940, Manuel Bandeira criou o seu Rondó do Capitão, que, em agosto de 1973, o grupo Secos & Molhados gravou no primeiro álbum lançado pela gravadora Continental.
Nele, o poeta pede em versos que o livrem da esperança, pois peso mais pesado não existe. E é bem ali, no coração, que ela reside, que ela resiste, ironicamente leve, aérea e verde.
O Rondó, como se sabe, é uma peça musical e também poética. Entre uma e outra, a composição se equilibra, seja em formas fixas, com versos de oito ou dez sílabas em duas rimas; seja na melodia, o último movimento da sinfonia e da sonata, aquele que se alcança em um crescendo.
Trava-línguas é um jeito nordestino de ensinar as crianças a pronunciarem com clareza as palavras.
Publicado no livro Lira dos Cinquent’anos, o poema de Manuel Bandeira voou levado pelo Tempo, qual o inseto noturno e verde que se esconde entre as folhas e, assim, consegue se proteger.
Lá adiante, três décadas adiante, eis que pousa na música de João Ricardo, eis que renasce na voz de Ney Matogrosso. A esperança tem força, embora tenha vida curta. Dura apenas um verão, o ciclo de sua existência.
Quando chega o Outono, antes que desapareça, a esperança põe seus ovos. Deles, nascem as ninfas, que são só crianças. Na Primavera, são as ninfas que emergem, sustentando estridentemente a vida musical na floresta, que se segue ao silenciamento das cigarras.
Durante a noite inteira, as esperanças cantam. Poucos sabem de suas asas fortes, que as sustentam no ar em voos que podem alcançar quilômetros.
Sim, as esperanças voam.